16.10.10

DGLB

No Público: «A proposta de Orçamento do Estado para 2011 propõe 50 processos de reorganização na Administração Pública, incluindo várias extinções de organismos.»

Logo no primeiro artigo: É extinta, sendo objecto de fusão, a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, sendo as suas atribuições integradas na Biblioteca Nacional de Portugal.

Péssimas notícias. Vamos ver o que acontece.

Design editorial português novamente elogiado no estrangeiro

Ler mais aqui.

12.10.10

Lighteratura

Danielle Steel deu à Time uma entrevista em que responde a dez perguntas. Eis o vídeo:


A primeira vez que vi um livro da Danielle Steel foi há muitos anos em casa da minha avó materna, que lia e ainda lê muito, principalmente na cama (como eu — só que ela também o faz de manhã, ao contrário de mim, que cada vez tenho menos tempo e adormeço ao fim de menos páginas). Peguei-lhe e julguei-o pela capa, estilo caixa-de-bombons. Li as primeiras linhas e não mudei de ideias; frases banais como «ele pegou na mão dela e depois isto e aquilo» só confirmaram a impressão que a fotografia da autora (a preto e branco evanescente, de mise e colarinho levantado) na contracapa tinha deixado. Carimbo: romances românticos para leitores pouco exigentes. Essa opinião mantém-se.
Porém, aqui está uma senhora que escreveu mais de cem livros, que vendeu milhões de exemplares em dezenas de países, nunca desapontando um público que lhe é fiel. Quanto mais não seja, há que admirar-lhe a consistência e o profissionalismo.
Ao ler um pouco mais sobre a sua vida, conhecendo melhor o seu método, começa a sentir-se gradualmente uma certa reverência pela autora. A resposta lúcida e pronta, uma inigualável capacidade de botar verbo, a empatia com os leitores, a franqueza e a dedicação às suas prioridades fazem de Danielle Steel mais do que uma banal escritora de pena cor de rosa.
Ganhei-lhe uma certa admiração porque não pretende enganar ninguém, porque os seus livros, embora formalmente elementares, terão sido úteis a muitos leitores, como distracção, terapia ou fonte de algum conhecimento, e porque soube alimentar os seus talentos.
Talvez esteja a ser condescendente — o Nicholas Sparks não m'inspira tais observações e quiçá tenha feito o mesmo —, mas o que é certo é que a respeito muito mais do que a um Paulo Coelho (cuja pretensa espiritualidade me desagrada sobremaneira — e para dizer sobremaneira é porque é mesmo muito) ou a um José Rodrigues dos Santos (cujos maus textos condizem com a fraca impressão que tenho da sua pessoa pública).
Não estou a dizer que a obra de Danielle Steel tem valor «por pôr pessoas a ler», o que seria, em grande medida, um bom argumento, ou que «se tem leitores é porque merece ser editada», o que, em parte, até é verdade. O que digo é que Danielle Steel, como autora, tem valor por si mesma. Numa época de sabichões, poseurs e outros impostores, falar de sentimentos (sejam eles quais forem) com sinceridade e competência é coisa rara. Continuarei uma fiel não-leitora, mas daqui em diante assumida admiradora da sua (pelo menos aparente) autenticidade.

site | blogue

11.10.10

Eu sei, eu sei,

deveria estar a escrever sobre muitas coisas importantes que se estão a passar. Contudo, minh'alma está petrificada desde que viu isto:



via Facebook do Filipe Homem Fonseca.

9.10.10

Enredos #1

Esboço de J.K. Rowling para o seu Harry Potter e a Ordem da Fénix.

6.10.10

Status

Não estou em Frankfurt. Estou só ocupada (e também soterrada sob uma avalanche de coisas que tenho em fila de espera para pôr aqui).

Actualização: não estou em Frankfurt mas é quase como se estivesse!

5.10.10

Alfabetologias


Daqui (com dois dedinhos a apertar o lóbulo da orelha).

1.10.10

Possibilidade

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim,
que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos,
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana. Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade que o ser tenha uma razão.

Wisława Szymborska

Tradução de Virgílio Tenreiro Viseu, em A Vertigem das Listas, de Umberto Eco, Difel, Lisboa, 2009

30.9.10

Palavras

Tony Judt faleceu no passado dia 6 de Agosto. Na New York Review of Books deixou-nos as suas últimas crónicas. Destas, a minha preferida talvez seja Words, que agora traduzo em três partes, em jeito de homenagem (e sem pedir licença a ninguém).


[parte 1]


Cresci com palavras. Elas tombavam da mesa da cozinha para o chão, onde me sentava. Entre avô, tios e refugiados, arremessavam-se, numa sucessão vertiginosa, afirmações e interrogações em russo, polaco, iídiche, francês e numa espécie de inglês. Indigentes sentenciosos do Partido Socialista do Reino Unido passeavam-se na nossa cozinha, promovendo a Causa Justa. Passei muitas horas a ouvir os autodidactas da Europa Central discutir pela noite dentro: marxismus, zionismus, socialismus. Parecia-me que falar era o propósito da vida adulta. Esta impressão nunca me abandonou.

Quanto a mim – e para me integrar –, também falava. Para dias de festa, memorizava palavras, recitava-as, traduzia-as. «Oh, ele será advogado», diziam. «Encantará os próprios pássaros, nas árvores»: coisa que tentei nos parques, em vão, até perceber o sentido da expressão e a empregar durante a adolescência, também sem grande resultado. Por esta altura, passara das intensas trocas poliglotas para a elegância do inglês da BBC.

Os anos 50 – quando frequentei a escola primária – foram uma época em que o uso e o ensino da língua inglesa se faziam com rigoror. Aprendemos que a menor transgressão sintáctica era inadmissível. O «bom» inglês estava no auge. Graças à BBC e às newsreels que precediam as sessões de cinema, estabeleceram-se normas nacionais para o discurso correcto; a autoridade da classe e da região determinavam não só como as coisas deveriam ser ditas, mas também que tipo de coisas era adequado dizer. Os «sotaques» abundavam (incluindo o meu), mas eram classificados como sendo mais ou menos respeitáveis: tipicamente, em função da posição social e da distância geográfica de Londres.

Fui seduzido pelo brilho da prosa britânica no seu efémero apogeu. Vivia-se a era da literacia de massas, cujo declínio Richard Hoggart antecipou no ensaio The Uses of Literacy (1957). Culturalmente, emergia uma literatura de protesto e revolta. De Lucky Jim a Look Back in Anger, passando por dramas de realismo social no final da década, as fronteiras classistas da sufocante respeitabilidade do bem falar estavam debaixo de fogo. Mas os próprios bárbaros, no seu ataque à tradição, recorriam às cadências aperfeiçoadas do inglês que lhes fora ensinado: ao lê-los, nunca me ocorreu que para nos podermos revoltar temos de o fazer usando a boa forma.

Chegado à Universidade, as palavras eram a minha inclinação. Como ambiguamente observou um professor, eu tinha o talento de um «orador de língua dourada» – combinando (como eu queria acreditar) a confiança inata daquele meio e o olho crítico do forasteiro. Os docentes de Oxbridge recompensavam o estudante verbalmente capaz: o estilo neo-socrático («porque escreveu isto?»; «o que quis dizer com aquilo?») convidava o aluno solitário a explanar-se longamente, assim lesando o pupilo tímido, reflexivo, que prefere ocupar as últimas filas do anfiteatro. A minha fé interesseira na eloquência foi reforçada: não era apenas prova de inteligência, era a própria inteligência.

Terei notado que o silêncio do mestre nesta circunstância pedagógica era crucial? Quer como estudante, quer como professor, o silêncio nunca foi um dos meus fortes. Ao longo dos anos, alguns dos meus colegas mais ilustres tornaram-se reservados a ponto de se remeterem ao silêncio hesitante durante debates e até em conversa, pensando ponderadamente antes de se comprometerem com uma posição. Invejei-lhes esta capacidade de contenção.

25.9.10

Tabela periódica


Font, or Fount. A complete set of type of the same body and face with all the points, accents, figures, fractions, signs, etc., that ordinarily occur in the printed books and papers. A complete fount (wich includes italics) comprises over 200 separate pieces of type, without the special characters needen in almanacs, astronomical and medical works, etc. The word os French, fonte, from fondre (to melt or cast).

24.9.10

Super Tim

Tim Gunn, Il Magnifico, faz a sua análise das farpelas dos super-heróis proporcionando belos momentos de entretenimento.





(E no dia em que o Super Homem aparecer assim num comic, comprarei todos os números.)

23.9.10

Retirada estratégica

Bem, parece que depois disto, temos isto. É o mínimo.

22.9.10

Ena pá 3000

Ele há de tudo...

E por falar em vídeos...

Aqui fica um inclassificável:


Uma sugestão do meu amigo Rafael.

$#%@ Me, Ray Bradbury

Depois deste vídeo, parece que a protagonista, Rachel Bloom, conheceu o seu ídolo. Ver mais aqui.


:)

Uma descoberta do meu amigo Nuno.

19.9.10

Crítica

Na revista online de filosofia Crítica, Aires Almeida acaba de publicar um interessantíssimo artigo sobre alguns maus hábitos enraizados na edição portuguesa, cuja leitura e discussão se recomenda vivamente.

Aborda quatro pontos:
  • O facto de se chamar segunda/terceira/... edição ao que é, na verdade, uma reimpressão.
Trata-se de um erro tão generalizado que, creio, nem os editores pretendem enganar ninguém com isso, nem os leitores são com isso enganados. Se numa obra académica, de facto, falar de edições levanta dúvidas (o que não é de somenos...), regra geral ninguém parte do princípio que Dan Brown alterou trinta vezes o Código da Vinci. Além disso, quando se trata de uma edição revista, os editores costumam chamar a atenção para esse facto em particular.
  • A fraquíssima qualidade de algumas traduções, que tanto(s) prejudicam e que não tinham de ser tão más.
Fui vítima, aliás, do mesmo logro relatado. Comprei o livro e não consegui passar da terceira página, tão intragável estava a tradução, levada a cabo, verifiquei em seguida, por uma empresa que presta esse tipo de serviços e que, provavelmente, encarrega várias pessoas de traduzir partes do mesmo texto.
Neste ponto, partilho com Aires de Almeida, além da imensa frustração, a total perplexidade perante tal mau passo por parte da editora. A elaboração de um livro representa um grande investimento e nenhuma parte da sua concepção deve ser descurada. Se se trata de uma tradução, garantir a qualidade do texto é essencial (até porque, num mundo globalizado com leitores poliglotas que fazem compras via internet, a versão portuguesa terá também de competir com a original). Porquê deitar tudo a perder com uma negligência deste calibre? Volta e meia dou por mim a pensar se não devo devolver-lhes o livro e pedir o dinheiro de volta...
  • O facto de habitualmente se menosprezar, em Portugal, a questão do índice.
Os índices são uma ferramenta indispensável e há que olhar sempre para as opções do autor e do editor original, no caso de este último existir. Faz parte da função do editor salvaguardar e valorizar o mais possível a experiência de leitura do leitor final (melhorando, inclusivamente, o que houver a aperfeiçoar).* Suprimir índices e mudá-los de sítio arbitrariamente, tal como não os completar com o rigor desejável, é, no mínimo, uma irresponsabilidade. E os leitores reparam sempre.
  • O quarto aspecto focado no artigo é transversal a estas três observações: a constatação de uma frequente falta de profissionalismo por parte das editoras e da recorrente falta de exigência por parte dos leitores (a meu ver, correlativas).

Acredito que quase todos os lapsos editoriais deste género se devem a ignorância, arrogância e urgência. Resumindo: incompetência e/ou desprezo pelos leitores. Uma conclusão dura, e triste, mas que não pode deixar de ser tirada.


*Pessoalmente, sou adepta da norma do índice de conteúdos no início (momento em que se expõe o esqueleto e o rumo do livro) e da colocação de todos os outros índices (remissivo, etc.) no fim. Um dia destes escrevo qualquer coisa sobre a grande importância do índice.

18.9.10

Inverter o processo

Manuel A. Domingos, entre outras coisas tradutor de Charles Bukowski e autor dos blogues meia noite todo o dia e o amor é um cão do inferno, dá destaque ao seu autor favorito nesta Alice #3. Todo o artigo tem interesse, mas é de salientar o seguinte poema:


se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender

que não há nada nem ninguém a saber tudo –

nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem

a dar uma aula de escrita criativa

e lerem isto

eu dou-vos um 20

pelo cu

acima.

16.9.10

15.09.1890

As celebrações dos 120 anos decorridos sobre o nascimento de Agatha Christie lembraram-me esta publicidade na livraria Foyles, em Londres (2009).