19.2.11

Meet the Classics



Campanha publicitária da Penguin para promover os clássicos.




Para saber mais, clicar aqui.


6.2.11

Sebastião Rodrigues

Para quem não conhece, é obrigatório dar um pulo aqui.

Considerado «o Pai do design português», com uma obra extensíssima, em particular no que toca à edição, é autor de capas históricas, como as que vêem em baixo.

O que mais impressiona, além de tudo, é o quão portugueses eram os seus projectos.























Além das imagens, deixo-vos um curioso testemunho do próprio:




Jorge Silva Melo, citado por Pedro Marques, escreveu sobre a perenidade das suas criações.

Entretanto, Jorge Silva [Silva! designers] tem um blogue, que relembra o nosso design. A seguir (e a recordar), pois com certeza.

2.2.11

Sem título

Auto-retrato de Borges, já cego.

E outros desenhos de outros autores.

11.1.11

Ainda sobre o Comic Sans

Estudos científicos comprovam que

e


Com piscadela de olho à Ana.

« »

It might well be that you only get out of a book what you put into it an see in it only what you are

W. Somerset Maugham (colhido algures)

6.1.11

Liberdades

Segundo os anónimos responsáveis, «nasceu no Facebook a primeira editora 100% virtual portuguesa direccionada a autores auto-publicados». (link)

A propósito ou não, quando a Bubok se tornou uma das minhas ligações no Facebook, recebi de imediato um e-mail seu perguntando se já tinha publicado um livro.

E por falar em autopublicações, aqui fica uma amostra das muitas utilidades de um livro.

5.1.11

Balanços

Não simpatizo com eles mas volta e meia é preciso tomá-los.
Eis 2011. 2010 foi um ano cheio. Comecei o blogue, fechei janelas e abri portas. Li muita coisa, menos do que queria, reli alguma coisa também. Sei um pouco mais do que sabia, espero menos, procurarei fazer melhor. Agora para o fim perdemos Tony Judt, Carlos Pinto Coelho e Denis Dutton. Tudo muda. Vejamos o que o amanhã nos traz.

21.12.10

Ofereça livros pelo Natal

Mas cuidado, a reacção pode ser esta:





Depois de conhecer o contexto* deste polémico vídeo, com mais de 30000 visualizações, tem graça.


*After opening a whole bunch of toys, my son 3 year old came across a present with books....keep in mind that this was kinda like his first "real" Christmas....and again he's was only three years old!....let me repeat. ONLY THREE YEARS OLD... And that he could just about understand and get the concept of the whole gift getting thing. I guess much to the blame of me, the media, and every commercial out there on TV he was more under the perception that you only get "toys" for christmas. To him Books are the fun time we spend reading (no less than three) every night before he goes to bed. Let me make something clear again. HE REALLY DOES LOVE BOOKS! But I'm guessing he was "overwhelmed" after opening way too many gifts (my fault I went overboard that year) and I think he felt "tricked upon" when he opened the books.....plus the fact that we were laughing at his reaction kinda egged him on to say the Poo statement..... He really is one of the sweetest kids I know and to see this reaction (if you know him yourself) IS cute.
I have deleted a lot of very undeserved negative comments that have been posted....I understand now that without a good understanding of the back history one could make a poor assumption of him....but now i hope you know that he was ONLY THREE YEARS OLD PEOPLE and that he only thought your supposed to get toys for christmas....partly because of how commercialized this holiday has become.....we have since taught him differently..............but just for kicks were gonna wrap books again for him and see what happens....

19.12.10

Cover lover #2


Daqui (do lóbulo da orelha).

De cordel

Ah! ah! ah!

Cover lover #1



Uma publicação destes senhores, encontrada aqui (e a fazer lembrar esta).

8.12.10

&etc

A revolução está mesmo aí. A emitir directamente do subterrâneo, a &etc virtualizou-se. Ora sejam bem-vindos.

5.12.10

Primeiras deleituras

A propósito de um artigo lido algures num blogue, dei por mim a recordar as minhas primeiras leituras. As primeiras foram-me feitas, claro, e delas não tenho muito mais além de vagas memórias. No percurso de autocarro até ao centro da cidade, a minha mãe entretinha-me com livros, quase sempre os mesmos. Desses, recordo os do Plum, quadrados, com páginas de cartão, de cuja colecção tinha três ou quatro títulos Os desenhos não me cansavam e o urso amarelo das histórias condizia com um boneco de peluche que tinha. (Será por isso que a minha cor preferida, no abstracto, é o amarelo?) Entre estes livros – para leitores de 2/3 anos – e os da Anita e afins – que, por essa altura, já lia sozinha –, houve dois que recordo com especial intensidade e ternura.
Um é O meu amigo elefante: viagem à Índia, repleto de aguarelas saídas de um sonho, que conta a história de um rapazinho que se despede dos pais para participar no festival anual de elefantes, em Jaipur. O exotismo da aventura e a singeleza da história são encantadores.
Outro é Tuqui Aviador, em que Tuqui, a personagem principal, compra um avião no ferro-velho e o restaura, pintando-o de amarelo (!). Tuqui é um cão, os melhores amigos um coelho e uma gata. O sucateiro é um rato e pelo meio da história há um agricultor surpreendido e uma dona de casa zangada por lhe terem levado o estendal. O cenário é totalmente campagne, o texto é em rima e fala-se em fuselagem. Foi a esta palavra que me agarrei, segundo me contam. «Ó mãe, o que é fuselagem?» E quem diz fuselagem diz outras coisas, como croissant. Terá sido por volta desta idade que comecei a descobrir o inesgotável interesse das palavras (e o apetite que algumas geram).
Em baixo fica uma amostra:


Curiosidade: http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=16840

Novos capítulos

Não, o blogue não morreu, esteve só adormecido durante um período de intensas mudanças. A ver se agora retomamos o ritmo (e se, porventura, actualizamos a lista de leituras).

3.11.10

Vídeoarte

Os booktrailers, que começaram por ser (pelo menos por cá) coisas toscas para promover os livros, indo buscar os leitores onde estes andavam, acabaram por ganhar em poucos anos um espaço próprio, havendo já prémios e fóruns da especialidade.

Este, em particular, cativou-me hoje a atenção. Diz respeito ao livro Soulpancake, que também tem direito ao seu próprio site, está claro.
Vale a pena fazer um vídeo (e um site!) para cada novo título? Bah, se as prateleiras já estão cheias de papel para reciclar, na rede não faltam zeros e uns supérfluos. Não se justifica tal disparate, que só banaliza o fenómeno, levando ao desinteresse generalizado. Evite-se usar o Youtube para, com uma música «emprestada», fazer fade-in e fade-out da capa do livro, alternando com uns excertos do texto ao estilo Powerpoint.
Porém, quando uma obra é especial, mesmo especial, uma verdadeira aposta, aposte-se tudo. Assim vale a pena. Contrate-se um realizador, se for preciso um produtor e demais elementos, faça-se um brainstorming generoso e, com os meios possíveis, leve-se a mensagem o mais longe que se puder. Este vídeo (um verdadeiro aperitivo), por exemplo, deixou-me cheia de apetite!

1.11.10

Found in translation


Grã-Bretanha, Inglaterra e Reino Unido não são a mesma coisa.

24.10.10

Cor

Depois de uma visita aqui e aqui (muito engraçado, o percurso da empresa), assista-se a:


e, já agora, também a:


22.10.10

Tinta permanente

Já conhecia o Contrarywise, mas não o blogue Tatoolit, que deu origem a este livro, The Word Made Flesh:


Agora não sei o que quero, se o livro, se uma tatuagem gira ou os dois. (Pfff... como se eu algum dia conseguisse decidir o que tatuar e tivesse coragem para levar a ideia avante.)

PS: Belo brooktrailer!

Ah, time flies

Já lá vão três!...

17.10.10

Nós por lá

«Crítica» ao Livro do Dessassossego, de Fernando Pessoa, no Guardian. (Não lhe faz justiça, mas any publicity is good publicity.)

16.10.10

DGLB

No Público: «A proposta de Orçamento do Estado para 2011 propõe 50 processos de reorganização na Administração Pública, incluindo várias extinções de organismos.»

Logo no primeiro artigo: É extinta, sendo objecto de fusão, a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, sendo as suas atribuições integradas na Biblioteca Nacional de Portugal.

Péssimas notícias. Vamos ver o que acontece.

Design editorial português novamente elogiado no estrangeiro

Ler mais aqui.

12.10.10

Lighteratura

Danielle Steel deu à Time uma entrevista em que responde a dez perguntas. Eis o vídeo:


A primeira vez que vi um livro da Danielle Steel foi há muitos anos em casa da minha avó materna, que lia e ainda lê muito, principalmente na cama (como eu — só que ela também o faz de manhã, ao contrário de mim, que cada vez tenho menos tempo e adormeço ao fim de menos páginas). Peguei-lhe e julguei-o pela capa, estilo caixa-de-bombons. Li as primeiras linhas e não mudei de ideias; frases banais como «ele pegou na mão dela e depois isto e aquilo» só confirmaram a impressão que a fotografia da autora (a preto e branco evanescente, de mise e colarinho levantado) na contracapa tinha deixado. Carimbo: romances românticos para leitores pouco exigentes. Essa opinião mantém-se.
Porém, aqui está uma senhora que escreveu mais de cem livros, que vendeu milhões de exemplares em dezenas de países, nunca desapontando um público que lhe é fiel. Quanto mais não seja, há que admirar-lhe a consistência e o profissionalismo.
Ao ler um pouco mais sobre a sua vida, conhecendo melhor o seu método, começa a sentir-se gradualmente uma certa reverência pela autora. A resposta lúcida e pronta, uma inigualável capacidade de botar verbo, a empatia com os leitores, a franqueza e a dedicação às suas prioridades fazem de Danielle Steel mais do que uma banal escritora de pena cor de rosa.
Ganhei-lhe uma certa admiração porque não pretende enganar ninguém, porque os seus livros, embora formalmente elementares, terão sido úteis a muitos leitores, como distracção, terapia ou fonte de algum conhecimento, e porque soube alimentar os seus talentos.
Talvez esteja a ser condescendente — o Nicholas Sparks não m'inspira tais observações e quiçá tenha feito o mesmo —, mas o que é certo é que a respeito muito mais do que a um Paulo Coelho (cuja pretensa espiritualidade me desagrada sobremaneira — e para dizer sobremaneira é porque é mesmo muito) ou a um José Rodrigues dos Santos (cujos maus textos condizem com a fraca impressão que tenho da sua pessoa pública).
Não estou a dizer que a obra de Danielle Steel tem valor «por pôr pessoas a ler», o que seria, em grande medida, um bom argumento, ou que «se tem leitores é porque merece ser editada», o que, em parte, até é verdade. O que digo é que Danielle Steel, como autora, tem valor por si mesma. Numa época de sabichões, poseurs e outros impostores, falar de sentimentos (sejam eles quais forem) com sinceridade e competência é coisa rara. Continuarei uma fiel não-leitora, mas daqui em diante assumida admiradora da sua (pelo menos aparente) autenticidade.

site | blogue

11.10.10

Eu sei, eu sei,

deveria estar a escrever sobre muitas coisas importantes que se estão a passar. Contudo, minh'alma está petrificada desde que viu isto:



via Facebook do Filipe Homem Fonseca.

9.10.10

Enredos #1

Esboço de J.K. Rowling para o seu Harry Potter e a Ordem da Fénix.

6.10.10

Status

Não estou em Frankfurt. Estou só ocupada (e também soterrada sob uma avalanche de coisas que tenho em fila de espera para pôr aqui).

Actualização: não estou em Frankfurt mas é quase como se estivesse!

5.10.10

Alfabetologias


Daqui (com dois dedinhos a apertar o lóbulo da orelha).

1.10.10

Possibilidade

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim,
que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos,
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana. Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade que o ser tenha uma razão.

Wisława Szymborska

Tradução de Virgílio Tenreiro Viseu, em A Vertigem das Listas, de Umberto Eco, Difel, Lisboa, 2009

30.9.10

Palavras

Tony Judt faleceu no passado dia 6 de Agosto. Na New York Review of Books deixou-nos as suas últimas crónicas. Destas, a minha preferida talvez seja Words, que agora traduzo em três partes, em jeito de homenagem (e sem pedir licença a ninguém).


[parte 1]


Cresci com palavras. Elas tombavam da mesa da cozinha para o chão, onde me sentava. Entre avô, tios e refugiados, arremessavam-se, numa sucessão vertiginosa, afirmações e interrogações em russo, polaco, iídiche, francês e numa espécie de inglês. Indigentes sentenciosos do Partido Socialista do Reino Unido passeavam-se na nossa cozinha, promovendo a Causa Justa. Passei muitas horas a ouvir os autodidactas da Europa Central discutir pela noite dentro: marxismus, zionismus, socialismus. Parecia-me que falar era o propósito da vida adulta. Esta impressão nunca me abandonou.

Quanto a mim – e para me integrar –, também falava. Para dias de festa, memorizava palavras, recitava-as, traduzia-as. «Oh, ele será advogado», diziam. «Encantará os próprios pássaros, nas árvores»: coisa que tentei nos parques, em vão, até perceber o sentido da expressão e a empregar durante a adolescência, também sem grande resultado. Por esta altura, passara das intensas trocas poliglotas para a elegância do inglês da BBC.

Os anos 50 – quando frequentei a escola primária – foram uma época em que o uso e o ensino da língua inglesa se faziam com rigoror. Aprendemos que a menor transgressão sintáctica era inadmissível. O «bom» inglês estava no auge. Graças à BBC e às newsreels que precediam as sessões de cinema, estabeleceram-se normas nacionais para o discurso correcto; a autoridade da classe e da região determinavam não só como as coisas deveriam ser ditas, mas também que tipo de coisas era adequado dizer. Os «sotaques» abundavam (incluindo o meu), mas eram classificados como sendo mais ou menos respeitáveis: tipicamente, em função da posição social e da distância geográfica de Londres.

Fui seduzido pelo brilho da prosa britânica no seu efémero apogeu. Vivia-se a era da literacia de massas, cujo declínio Richard Hoggart antecipou no ensaio The Uses of Literacy (1957). Culturalmente, emergia uma literatura de protesto e revolta. De Lucky Jim a Look Back in Anger, passando por dramas de realismo social no final da década, as fronteiras classistas da sufocante respeitabilidade do bem falar estavam debaixo de fogo. Mas os próprios bárbaros, no seu ataque à tradição, recorriam às cadências aperfeiçoadas do inglês que lhes fora ensinado: ao lê-los, nunca me ocorreu que para nos podermos revoltar temos de o fazer usando a boa forma.

Chegado à Universidade, as palavras eram a minha inclinação. Como ambiguamente observou um professor, eu tinha o talento de um «orador de língua dourada» – combinando (como eu queria acreditar) a confiança inata daquele meio e o olho crítico do forasteiro. Os docentes de Oxbridge recompensavam o estudante verbalmente capaz: o estilo neo-socrático («porque escreveu isto?»; «o que quis dizer com aquilo?») convidava o aluno solitário a explanar-se longamente, assim lesando o pupilo tímido, reflexivo, que prefere ocupar as últimas filas do anfiteatro. A minha fé interesseira na eloquência foi reforçada: não era apenas prova de inteligência, era a própria inteligência.

Terei notado que o silêncio do mestre nesta circunstância pedagógica era crucial? Quer como estudante, quer como professor, o silêncio nunca foi um dos meus fortes. Ao longo dos anos, alguns dos meus colegas mais ilustres tornaram-se reservados a ponto de se remeterem ao silêncio hesitante durante debates e até em conversa, pensando ponderadamente antes de se comprometerem com uma posição. Invejei-lhes esta capacidade de contenção.

25.9.10

Tabela periódica


Font, or Fount. A complete set of type of the same body and face with all the points, accents, figures, fractions, signs, etc., that ordinarily occur in the printed books and papers. A complete fount (wich includes italics) comprises over 200 separate pieces of type, without the special characters needen in almanacs, astronomical and medical works, etc. The word os French, fonte, from fondre (to melt or cast).

24.9.10

Super Tim

Tim Gunn, Il Magnifico, faz a sua análise das farpelas dos super-heróis proporcionando belos momentos de entretenimento.





(E no dia em que o Super Homem aparecer assim num comic, comprarei todos os números.)

23.9.10

Retirada estratégica

Bem, parece que depois disto, temos isto. É o mínimo.

22.9.10

Ena pá 3000

Ele há de tudo...

E por falar em vídeos...

Aqui fica um inclassificável:


Uma sugestão do meu amigo Rafael.

$#%@ Me, Ray Bradbury

Depois deste vídeo, parece que a protagonista, Rachel Bloom, conheceu o seu ídolo. Ver mais aqui.


:)

Uma descoberta do meu amigo Nuno.

19.9.10

Crítica

Na revista online de filosofia Crítica, Aires Almeida acaba de publicar um interessantíssimo artigo sobre alguns maus hábitos enraizados na edição portuguesa, cuja leitura e discussão se recomenda vivamente.

Aborda quatro pontos:
  • O facto de se chamar segunda/terceira/... edição ao que é, na verdade, uma reimpressão.
Trata-se de um erro tão generalizado que, creio, nem os editores pretendem enganar ninguém com isso, nem os leitores são com isso enganados. Se numa obra académica, de facto, falar de edições levanta dúvidas (o que não é de somenos...), regra geral ninguém parte do princípio que Dan Brown alterou trinta vezes o Código da Vinci. Além disso, quando se trata de uma edição revista, os editores costumam chamar a atenção para esse facto em particular.
  • A fraquíssima qualidade de algumas traduções, que tanto(s) prejudicam e que não tinham de ser tão más.
Fui vítima, aliás, do mesmo logro relatado. Comprei o livro e não consegui passar da terceira página, tão intragável estava a tradução, levada a cabo, verifiquei em seguida, por uma empresa que presta esse tipo de serviços e que, provavelmente, encarrega várias pessoas de traduzir partes do mesmo texto.
Neste ponto, partilho com Aires de Almeida, além da imensa frustração, a total perplexidade perante tal mau passo por parte da editora. A elaboração de um livro representa um grande investimento e nenhuma parte da sua concepção deve ser descurada. Se se trata de uma tradução, garantir a qualidade do texto é essencial (até porque, num mundo globalizado com leitores poliglotas que fazem compras via internet, a versão portuguesa terá também de competir com a original). Porquê deitar tudo a perder com uma negligência deste calibre? Volta e meia dou por mim a pensar se não devo devolver-lhes o livro e pedir o dinheiro de volta...
  • O facto de habitualmente se menosprezar, em Portugal, a questão do índice.
Os índices são uma ferramenta indispensável e há que olhar sempre para as opções do autor e do editor original, no caso de este último existir. Faz parte da função do editor salvaguardar e valorizar o mais possível a experiência de leitura do leitor final (melhorando, inclusivamente, o que houver a aperfeiçoar).* Suprimir índices e mudá-los de sítio arbitrariamente, tal como não os completar com o rigor desejável, é, no mínimo, uma irresponsabilidade. E os leitores reparam sempre.
  • O quarto aspecto focado no artigo é transversal a estas três observações: a constatação de uma frequente falta de profissionalismo por parte das editoras e da recorrente falta de exigência por parte dos leitores (a meu ver, correlativas).

Acredito que quase todos os lapsos editoriais deste género se devem a ignorância, arrogância e urgência. Resumindo: incompetência e/ou desprezo pelos leitores. Uma conclusão dura, e triste, mas que não pode deixar de ser tirada.


*Pessoalmente, sou adepta da norma do índice de conteúdos no início (momento em que se expõe o esqueleto e o rumo do livro) e da colocação de todos os outros índices (remissivo, etc.) no fim. Um dia destes escrevo qualquer coisa sobre a grande importância do índice.

18.9.10

Inverter o processo

Manuel A. Domingos, entre outras coisas tradutor de Charles Bukowski e autor dos blogues meia noite todo o dia e o amor é um cão do inferno, dá destaque ao seu autor favorito nesta Alice #3. Todo o artigo tem interesse, mas é de salientar o seguinte poema:


se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender

que não há nada nem ninguém a saber tudo –

nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem

a dar uma aula de escrita criativa

e lerem isto

eu dou-vos um 20

pelo cu

acima.

16.9.10

15.09.1890

As celebrações dos 120 anos decorridos sobre o nascimento de Agatha Christie lembraram-me esta publicidade na livraria Foyles, em Londres (2009).


13.9.10

Agenda

Este segundo semestre está de agenda sobrelotada. Do Palavras Andarilhas, já esta semana, em Beja, ao Fórum Fantástico, em Novembro (12 a 14), eis mais um acontecimento a não perder: Once Upon a Place. De 12 a 14 de Outubro, organizado pela Faculdade de Arquitectura da UL (e não só) e com o apoio da FCG (entre outras entidades), vai brindar-nos com a presença de Alberto Manguel.
Se houver tempo, ainda se vai ali ao lado ouvir uma história.

Alice #3

A revista Alice #3 já está disponível. Mais um grande número, com especial destaque para a entrevista a Manuel Monteiro, revisor de profissão.

O futuro é agora

Há umas semanas, no suplemento literário do LA Times, Jacket Copy, Carolyn Kellogg assinava um artigo no qual, entre outras coisas, discutia esta proposta – a de que os editores incapazes de se adaptar aos novos tempos deveriam fechar as portas em grande e, com uma festa, sair de cena. É verdade que muitas editoras têm fins agonizantes, que se prolongam no tempo, com falências, novas gerências e eventuais demências. É mais fácil criar um projecto do que admitir que o mesmo falhou. E é igualmente certo que esta súbita necessidade de adaptação a um meio em rapidíssima transformação deixará muitos pelo caminho. Mas valerá a pena ser tão pessimista? Nos EUA não sei, mas em Portugal – enquanto no estrangeiro se fazem coisas destas e por cá se assobia para o lado – há motivos para julgar que sim.

9.9.10

Adoptar palavras


Ora aqui está uma boa ideia, comprometer-mo-nos a manter viva uma palavra em vias de extinção. Já tenho a minha: panphagous. Uma brilhante iniciativa da OUP.



Uma sugestão do meu amigo Marcelo.

7.9.10

Quando eu nasci

Soube-se ontem que o fantástico colectivo Planeta Tangerina verá um dos seus maiores (e premiados) sucessos editoriais publicado em inglês e, nada mais, nada menos, pela exigente Tate Publishing. Muitos parabéns!

6.9.10

Fofoca

Um dos maiores e melhores cartoonistas de sempre, Laerte, deu uma entrevista à revista brasileira Bravo!, na qual a assumiu que gosta de se vestir de mulher e que tem estado cada vez mais à vontade com essa sua faceta. (Por acaso ou não, a revelação coincidiu com o lançamento de mais um dos seus álbuns.) O autor já tinha abordado o tema em algumas das suas tiras.
Parabéns pela audácia, digo eu. É sempre bom quando um dos grandes é suficientemente grande para não ter medo de se mostrar tal como é.

(notícia)

McDreamy's

Também eu! também eu!

By the way, a Chronicle Books governa.

30.8.10

Páginas tantas

Para quem nem sempre sabe a quantas anda, aqui ficam sugestões de marcadores de livros: uma, duas, três, quatro (e até cinco).


Por indicação do meu amigo Pedro.

26.8.10

« »

Ia a sair do hotel Ritz com Proust. Em gorjetas, ele já tinha distribuído consoante o seu coração – todo o dinheiro que tinha no bolso. Chegado diante do porteiro, apercebeu-se disso e perguntou-lhe se ele lhe poderia emprestar cinquenta francos. Vendo que o porteiro se apressava a abrir a carteira, acrescentou: «guarde-os, eram para si.»

Jean Cocteau, Cahiers Marcel Proust (Gallimard) (colhido algures)

25.8.10

E quando eu achava que já tinha visto tudo...


eis que surge a Bíblia do Surfista. Literalmente. Não é como a bíblia da cozinheira. É A Bíblia do Surfista. Tudo aqui.



Uma descoberta da minha amiga Ana.

23.8.10

Grande oferta de livros do Bibliotecário de Babel

Foi tal e qual assim. Vista soberba, participantes animados.
Sugiro que da próxima vez juntemos mais pessoas com livros em excesso e que se organize uma manhã de trocas. Pode sempre acontecer que o que a mim não me interessa encha as medidas a outrem e vice-versa. Renovam-se os volumes nas estantes, respira-se ar puro e conhecem-se pessoas novas.

19.8.10

Mimos

Apraz-me sempre quando um editor tem o cuidado de informar o leitor sobre a tiragem da edição, os tipos utilizados, o papel eleito e dados afins. Indo além da ficha técnica, estes pormenores são relevantes para quem gosta de livros. Há, porém, ocasiões especiais, em que encontramos verdadeiras surpresas. Eis alguns exemplos:


Direcção Proibida, Nelson de Barros, Edição de Eduardo Faria, 1937

Suicídio – Modo de Usar, Claude Guillon e Yves Le Bonniec, Antígona, 1990


Vende-se, José Pinto Carneiro, Cotovia, 1996

3.8.10

Francamenti

Em tempos de desacordo ortográfico, a Nestea aproveita a boleia com uma campanha publicitária que reivindica a inclusão da sua palavra de ordem – mudasti – no dicionário de língua portuguesa. Naturalmente, já há petições (a favor, bastante parva, e contra, um tanto tola).



Além do alarido em torno da proposta, que porá a marca e o slogan nas bocas do mundo, a estratégia da Nestea passa também por oferecer um dicionário em CD-ROM com o novo acordo ortográfico na compra de algumas embalagens do seu produto.

« »

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, continuação do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

J.L. Borges

30.7.10

«Livros proibidos no regime fascista» (1981)


Chegou-me às mãos este livro, um levantamento (longe de exaustivo) de obras cuja circulação esteve proibida durante a ditadura. Entre elas encontramos títulos inevitáveis, como os de Karl Marx ou os de Henry Miller, mas também outros bastante surpreendentes, como um estudo de Pavlov. Livros sobre planeamento familiar, outros sobre o surrealismo, escritos de Agostinho da Silva ou de Bertrand Russel, havia um pouco de tudo na «Relação». Os Capitãs da Areia, de Jorge Amado, estava banido, assim como textos de Baudelaire, de Steinbeck e de Herberto Helder.
Não se estranha que um regime totalitário queira proibir obras de natureza explicitamente política — Tomaz da Fonseca é o campeão, com 16 livros interditos —, mas ficamos a perceber a força (também política, ou eminentemente política) da literatura quando, em estado puro, ela é suficiente para intimidar o censor, necessariamente um ignorante.
Em baixo estão três imagens de um Auto de Busca e Apreensão, de 1965, que ilustra como estas operações afectavam as editoras. (Para ampliar basta clicar na imagem.)

(últimas linhas sumidas no original)

Sublinhe-se que, além se apreenderem diversos títulos — aqui, por exemplo, são contemplados vinte e um, em que se incluem História Universal da Infâmia, de J.L. Borges, e Não Matem a Cotovia, de Harper Lee —, eram levados «para averiguação» todos os exemplares (neste caso, quase 15.000 exs.). 
Dezenas de editoras viram-se directamente lesadas pela censura; indirectamente, fomos todos nós. Que as infâmias da História fiquem na História.


Por acaso ou não, a editora que surge no relatório é a mesma que viria publicar este livro.

20.7.10

Words and enthusiasm

Erin McKean (www.dictionaryevangelist.com), lexicógrafa e criadora do Wordnik, fala-nos de dicionários. Um petisco para quem saboreia palavras.



E por falar em dicionários, seria impossível não referir o fantástico Wordia.

Porto Editora, que tal uma coisa parecida em português?

19.7.10

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Outside of a dog, a book is man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read.

Groucho Marx

18.7.10

Balla

Armando Teixeira, ou Balla, autor das canções do Gato Fedorento na SIC, vai lançar um novo disco – Equilíbrio – em Outubro. Este quarto álbum de originais, depois do óptimo A Grande Mentira (2006), terá letras suas mas também de José Luís Peixoto, Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia. Aguardemos.

16.7.10

Ao longe, um cão ladrou

Em literatura, é impossível escapar a imagens recorrentes.
Além da universal brisa na folhagem ou do murmúrio das ondas, há bordões mais subtis. Neste delicioso artigo, vemos como muitos autores adoptaram a expressão somewhere a dog barked para criar um ambiente ou fazer uma pausa. De Joyce a Tolstoi, passando por William Burroughs e Virginia Woolf, pequenos e grandes nomes das letras valeram-se do latido distante como recurso.
O mesmo se poderá dizer da clássica coruja que pia, havendo outra que lhe responde, convocada para a narrativa sempre que a noite é escura e silenciosa.
De agora em diante, estarei ainda mais atenta a estes chavões.

12.7.10

Comic Sans patience

Um dos tipos mais disseminados e repudiados de sempre revolta-se e responde à letra: um monólogo imperdível, que inclui pérolas como Need to soften the blow of a harsh message about restroom etiquette? SLAM. There I am.




E o Comic Sans bem precisa de defesa...

Criado em 1994 por Vincent Connare para a Microsoft, foi
um sucesso imediato. Inspirado na caligrafia da banda desenhada, Connare criou-o para evitar usar Times New Roman num balão de diálogo. Porém, o uso indiscriminado de caracteres com esta forma por toda a parte levou a que pessoas sensíveis a pormenores passassem a detestar o Comic Sans.
Hoje, c
onotado com falta de maturidade e de elegância, é símbolo da má utilização de um tipo. O site http://bancomicsans.com/, e o movimento a ele associado, ilustra bem a aversão que se gerou, especialmente por parte de designers.
Mas este não é um assunto debatido apenas por minorias. Na semana passada, um treinador desportivo norte-americano escreveu uma carta aberta usando Comic Sans. As suas declarações eram bombásticas, mas o que reteve a atenção do público foi o tipo de letra escolhido. Os leitores questionaram a seriedade das intenções do autor e troçaram imediatamente da sua opção tipográfica, fazendo disso um dos assunto mais comentados on-line nos Estados Unidos (notícia).
Por outro lado, se um tipo de letra conquista tamanha preferência, será que não tem mesmo alguma coisa de especial?
Connare carrega o fardo da sua sua criação e, sobre o seu Frankenstein, diz-nos: If you love it, you don't know much about typography, if you hate it, you really don't know much about typography, either, and you should get another hobby.

Para o melhor e para o pior, que não se duvide do poder de um tipo de letra.


PS: Se está a pensar escrever a uma editora, não o faça usando Comic Sans. Dificilmente será levado a sério.