30.9.12
13.9.12
A mancha
Na passada sexta-feira, Philip Roth publicou na New Yorker uma carta aberta à Wikipédia. Ao que parece, o artigo relativo ao seu livro A Mancha Humana conteria um erro que o autor tentou remover sem sucesso. Os editores do artigo defendiam que a personagem principal do livro era baseada numa dada pessoa quando, afinal, se tratava de outra. O artigo, entretanto, já foi modificado e inclui, até, referência à carta aberta.
A carta de Roth é longa e pormenorizada. Demasiado longa, a meu ver. Li-a até ao fim apenas para tentar ver se, mais para a frente, o autor acrescentaria alguma coisa de interessante. Nem por isso. Os primeiros dois parágrafos são tudo quanto vale a pena. O resto é Roth a explicar-se ao mundo, qual vítima de um julgamento que nunca aconteceu. Os editores da Wikipédia, bem como alguns críticos, concluíram erradamente uma coisa. Acontece a toda a hora e ainda bem que o autor está vivo para repor a verdade. Porém, não é nenhum drama, nem justifica uma autópsia do romance em praça pública (Roth chega a contar o desfecho da obra). Bastaria relatar a troca de correspondência com o administrador da Wikipedia, dizer de sua justiça — eu, Autor, afirmo isto e nego aquilo — e seguir em frente, em direcção a coisas mais importantes.
Este texto parece-se com o livro: muito mais palavroso do que poderia ser, perdendo, assim, todo o interesse. (Ainda por cima, fiquei a saber que aquilo que romance tinha para mim de valioso — o ponto de partida — é, na verdade, não fruto da imaginação do autor, mas decalcado de factos reais. Um ponto a mais para a realidade, um ponto a menos para o autor.) Não terminei o livro, largando-o ao fim de 50 páginas (dei o benefício da dúvida até onde pude), precisamente por ele ter tudo a mais. Palavras a mais, parágrafos a mais, páginas a mais. Podia ser que o ritmo ajudasse à história, mas, até onde li, não.
Nem todos têm o dom da concisão, nem a concisão é sempre uma coisa boa, mas Roth é um chato. Quando se começa um artigo a questionar o papel do criador de uma obra face ao que os enciclopedistas virtuais alegam sobre essa obra, tocando num ponto sumarento — “I understand your point that the author is the greatest authority on
their own work,” writes the Wikipedia Administrator — “but we require
secondary sources.” —, não se pode não reflectir sobre isso e passar a descrever minudências: «I never took a meal with Broyard, never went with him to a bar or a
ballgame or a dinner party or a restaurant, never saw him at a party I
might have attended back in the sixties when I was living in Manhattan
and on rare occasions socialized at a party.» A sério, Sr. Roth, vai enumerar todas as circunstâncias em que nunca se cruzou com o indivíduo em que alguns acreditam que o livro se baseou?
Outro ângulo interessante, que Roth não explora, claro, é o da coincidência entre o que aconteceu com o seu amigo Melvin, a pessoa em quem o protagonista do romance é baseado, e com Broyard, a pessoa em que a personagem poderia ter sido baseada. É preciso reconhecer as coincidências que deram origem à confusão. Não é incrível como, sendo todos nós tão diferentes, sejamos todos tão parecidos? Não é curioso que tenham existido na mesma altura diversas personagens, pelo menos duas reais e uma fictícia, a partilhar tantas semelhanças? Não é engraçado? E literário? É. Só Roth não é engraçado. Nem literário.
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12.9.12
Context first
Nesta palestra, apresentada numa conferência TOC for Publishing, Brian O'Leary fala de uma mudança necessária e inevitável. Não de formatos, de paradigma.
É tudo como diz? Vai ser como prevê? Creio que em boa parte sim, mas preciso de mais tempo para responder. As mudanças são tão velozes e, por vezes, tão inesperadas, que até uma teoria sobre elas parece demasiado definitiva.
10.9.12
Como ganhar uma discussão sobre livros electrónicos
Não tenho grandes dúvidas de que os dois formatos são diferentes mas compatíveis. No entanto, todos os dias oiço e leio discussões quanto ao melhor formato ou ao formato que sairá vitorioso. Sente-se mais grego ou mais troiano? Espreite aqui.
7.9.12
5.9.12
Cortázar
«Numa aldeia da Escócia vendem-se livros com uma página em branco, página perdida num lugar qualquer do volume. Se o leitor der com essa página às três da tarde, morre.»
Histórias de Cronópios e de Famas, com tradução de João Alfacinha da Silva (♥).
Histórias de Cronópios e de Famas, com tradução de João Alfacinha da Silva (♥).
4.9.12
De volta
Uns dias em praias espanholas encheram-me de alegria ao ver o futuro: toldo sim, toldo não, gente com um livro nas mãos. (Isso e boliñas.) E quando não eram em papel eram electrónicos. Foi bonito. Já tenho saudades do futuro.
14.8.12
2.8.12
(N. do T.)
Estou a ler o Moby Dick e a gostar, naturalmente (embora lhe fizesse uns cortes aqui e ali). Encontrei num alfarrabista uma bela edição, da Estúdios Cor, com tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves.
Estas traduções antigas são a minha madalena. Há cinquenta anos o vocabulário era outro e isso muda tudo. Enquanto leio vou recuando no tempo e a viagem desculpa as vírgulas mal colocadas e quaisquer outras atribulações menores. Além disso, as marcas dos chumbos tipográficos saltam à vista e essa artesanalidade dá um quentinho extra à leitura. Cresci com a colecção «Dois Mundos» e a minha Mafalda é a das traduções dos anos 70, talvez a nostalgia venha daí. Mas adiante.
A tradução está bem feita e a primeira gralha só a encontrei lá para a página 80. Não sou defensora acérrima de um tipo particular de tradução — mais próxima da língua de partida ou da de chegada, com o tradutor mais discreto ou mais à vista —, ela tem é de ser competente e a adequada para o livro em causa. Neste caso particular, estou bastante ciente da presença do tradutor, que me tem feito uma agradável companhia. Aquilo por que não esperava era que ele se pusesse a dizer de sua justiça quanto ao autor, a outros tradutores ou à literatura em geral. Ora espreitem:
Eis o parágrafo a que a nota diz respeito:
Já vi, e até já fiz, muita coisa fora do normal, mas opinar desta maneira é para mim uma novidade. Não me incomodou minimamente, mas fiquei espantada, pois este género de considerações costuma pertencer aos bastidores.
Resta saber qual dos dois, AM ou DG, foi o atrevido.*
Para terminar, deixo-vos uma das muitas pérolas de Melville neste clássico:
* Costumava achar que as obras com dois ou mais tradutores eram feitas em colaboração, lado a lado, devido à complexidade do original. Entrando para a edição, rapidamente me desenganei — trata-se quase sempre de uma divisão geométrica.
PS: Se fosse vivo, o senhor Melville teria feito ontem 193 anos.
PS: Se fosse vivo, o senhor Melville teria feito ontem 193 anos.
1.8.12
Nível crítico: Panzer
António Araújo passa por cima de Domingos Amaral uma, duas, três e quatro vezes com um tanque de guerra. Vale a pena ler de fio a pavio a crónica deste desastre, a fazer lembrar a que Rogério Casanova dedicou a Margarida Rebelo Pinto.
Claro que se pode discutir uma série de coisas e racionalizar o que se quiser, tendo sempre alguma ou muita razão. O certo é que sabe bem, de vez em quando, ver alguém chamar trampa à trampa. Essa confirmação faz-nos sentir um pouco menos loucos e um pouco menos sós.
Obrigada, AA, por um trabalho tão bem feito que fez com que a hilaridade superasse a depressão. Alguns dos seus trocadilhos mereciam ser tatuados.
26.7.12
Que farei quando tudo arde?
A temporada anual de incêndios faz-nos pensar. Na eficácia dos governos, no poder e na fragilidade da natureza, na nossa natureza, no que temos e no que perdemos, em quantos somos, no pouco e no muito que podemos.
Já todos nos perguntámos o que levaríamos connosco se um dia víssemos a nossa casa em chamas e tivéssemos de fugir. Não é um exercício tão fútil e tão raro quanto se possa julgar. A prová-lo, se precisássemos de mais provas, temos o livro The Burning House: What People Would Take if the House Was on Fire, um ensaio fotográfico sobre aquilo que mais nos pertence.
Há alguns hipsters, gente apegada aos seus Macs e às máquinas fotográficas (ou não retratassem amorosamente aquilo de que não se querem separar), há peluches antigos, livros e roupa. Até há um português. Mas há muito mais além disso. Estes montículos pessoais, amores portáteis, falam por si.
Pus-me a pensar no assunto e, apesar de a minha biblioteca conter algumas preciosidades, acho que não levaria nada de lá. Há muito mais vida além dos livros e, felizmente, ainda vivo num mundo em que há muitos e eles são quase todos substituíveis (não é, Sr. Bradbury?).
Pus-me a pensar no assunto e, apesar de a minha biblioteca conter algumas preciosidades, acho que não levaria nada de lá. Há muito mais vida além dos livros e, felizmente, ainda vivo num mundo em que há muitos e eles são quase todos substituíveis (não é, Sr. Bradbury?).
5.7.12
Valha-nos S. Gutenberg!
A Sociedade Bíblica é o exemplo perfeito de uma empresa que vive de um único produto. Nada de muito surpreendente, não fosse uma editora. Como têm de vender muito de um só produto (em vez de pouco de muitos, o modelo de negócio da maioria das editoras), têm de ser criativos e explorar variações.
Lançaram A Bíblia do Surfista, oferecem vários tipo de encadernação, da ganga à camurça cor-de-rosa, e promovem uma aplicação que permite ler a Bíblia no telemóvel. Mas aquilo por que ninguém esperava era esta última inovação...
De facto, na Bíblia, há coisas para todos os gostos. Mal posso esperar pela colecção de histórias de suspense, em que irmãos matam irmãos, etc.
30.6.12
Planos para o fim-de-semana
Diz que há lá uma pessoas que põem coisas bonitas no papel.
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PS: por falar em pôr coisas no papel...
ó eu, na maravilhosa Oficina do Cego.
ó eu, na maravilhosa Oficina do Cego.29.6.12
28.6.12
Por que escrevo
Subscrevemos os mesmos sites, de certeza, porque eu ia fazer um post com isto e o autor do blogue Malomil antecipou-se. Ora espreitem.
Giro, não é?
Conheço bem o Por que escrevo e outros ensaios, publicado entre nós pela Antígona, e os outros timeless insights on writing. O que este texto da Atlantic me lembrou foi de uma coisa extraordinária (para mim, claro): que não tenho motivo para escrever. Além de uma vaga necessidade de «pôr cá para fora» (vulgar, eu sei) como quem tem de vomitar de vez em quando* (desculpem-me, leitores mais sensíveis), de desenrolar uma meada interna, e do prazer de descobrir coisas que não sabia que tinha cá dentro, de ver as rodas dentadas a mexerem sozinhas, não há nada que justifique esta coisa de pôr as mãos à obra.
No ego, no beauty, no purpose. Não o faço para mostrar, não o faço para mudar o mundo, não me delicio com o fôlego estético do que gero, nem, pelo menos de momento, tenho um patamar imposto a que chegar. Talvez por isso saiba tão bem.
No ego, no beauty, no purpose. Não o faço para mostrar, não o faço para mudar o mundo, não me delicio com o fôlego estético do que gero, nem, pelo menos de momento, tenho um patamar imposto a que chegar. Talvez por isso saiba tão bem.
Se tivesse um objectivo, isso podia acabar com a graça. Numa vida de
prazos, orçamentos, correcções, comparações, grelhas, burocracia,
actas e pastilhas que tais, ler e escrever sem rumo são coitos. Aqui não
vale, ninguém me apanha, as regras não se aplicam. No jogo do mundo**,
às vezes sabe bem não participar.
Que eu saiba, não escrevo por nada, para nada, escrevo porque escrevo. Pode ser que isso mude, pode ser que não. E não saber por que escrevo é em boa parte motivação para escrever.
Se um dia descobrir uma razão concreta, aviso. Mas espero continuar na ignorância.
Se um dia descobrir uma razão concreta, aviso. Mas espero continuar na ignorância.
Tantos conselhos, tantas regras, tantas opiniões. Gosto muito, mas não me adapto a metade, se tanto. Para todas as perguntas que me fizerem acerca da escrita, a resposta será quase sempre «não sei», ou então formulada de improviso. Quando começo a achar alguma coisa, no dia seguinte desengano-me. Não escrevo escrevo; invento uma coisas, sem saber para onde vou.
Isto tira valor ao que faço? Adivinhem a resposta: não sei. Acho que não, mas não estou interessada em saber; porque não importa.
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No fim de tantos conselhos sábios de tantos veneráveis, há ainda espaço para as minhas duas únicas humildes achegas, que nunca li em lado algum.
Gente que escreve ou pensa em escrever: tenham a coragem de não saber (quer queiram saber ou não) e a coragem de pôr os pés ao caminho apesar de não saberem.
* Coelhinhos de Cortázar. :)
** Segunda referência involuntária a Cortázar.
** Segunda referência involuntária a Cortázar.
26.6.12
Fifty Shades of qualquer coisa
Para quem ainda não sabe, o livro Fifty Shades of Gray é uma obra de fanfiction com base universo Crepúsculo (sim, aquele dos vampiros). Apresenta-se como literatura erótica e chegou aos tops de vendas, muito graças ao anonimado que o download de livros electrónicos permite.
Não li, nem preciso; esta crítica chega e sobra para me esclarecer e fazer chorar de tanto rir. Mas, entretanto, ficam algumas questões no ar: Será a fanfiction legítima? Até que ponto se pode reciclar uma receita?
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21.6.12
Imaginário
Ben West e Felix Heyes acabam de lançar o Google Book, um dicionário de imagens. Pegaram nas 21 000 palavras de um dicionário, pesquisaram imagens no Google e «dicionarizaram» a primeira que apareceu. Eis o resultado:
Definitivamente, ceci n'est pas un e-book.
Podem ler mais sobre o assunto aqui
PS: Gosto especialmente da capa.
20.6.12
π-ssoa
Pessoa é infinito. Dá para tudo e para todos. O de Cavalcanti, além de poeta, é vaidoso, caloteiro, inventor dos matraquilhos (?!) e provavelmente gay.
Depois desta entrevista, fiquei curiosa: saberia o brasileiro bonacheirão do que falava? O que é verdade e o que é invenção? Não corri para a livraria porque a ideia de alguém se aventurar, ao longo de 700 páginas, a imitar o estilo de Pessoa (as if) me deixou com fastio logo ali. Aguarde-se pela crítica, nesse caso. E ela chegou. Nas linhas que imaginei, mas muito mais demolidora do que poderia supor, Teresa Rita Lopes arrasa o livro, e o autor (ou co-autor?, cristo!), numa penada.
Eis o texto, que merece leitura integral: Incompreender Pessoa.
Hoje, o Ípsilon, suplemento onde saiu a crítica de TRL, anuncia no seu Facebook que Cavalcanti terá espaço para uma carta-resposta na próxima edição em papel.
São coisas destas que vendem jornais. Intelectual de mão na anca põe tudo a ler. Haja coragem de lavar a roupagem em praça pública, desde que se o faça com graça. Venham as polémicas! De preferência com elevação, mas se for mais pedestre o povo também não reclama. O que é preciso é mexer, debater e ter opinião. Eu sou team TRL, mas estou desejosa que me contradigam.
Cronologia:
5 de Abril - Blogue «Um Fernando Pessoa» faz uma apreciação crítica do livro (a meu ver, equilibrada).
20 de Abril - O autor é entrevistado pelo Sol.
26 de Abril - O livro é apresentado na Casa Fernando Pessoa.
4 de Maio - Teresa Rita Lopes psicografa uma carta de Álvaro de Campos sobre a biografia.
6 de Maio - É emitida a entrevista ao autor na TVI24.
9 de Maio - O autor responde à carta de TRL.
25 de Maio - TRL publica a sua crítica no Ípsilon.
31 de Maio - Nova carta psicografada por TRL.
16 de Junho - Richard Zenith divulga no suplemento Q informações importantes.
16 de Junho - TRL, no DN, tem novo texto sobre o assunto.
22 de Junho - Sairá carta do autor no Ípsilon. Aguardemos.
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19.6.12
Working class hero
Senhoras e senhores, a isto se deve o meu silêncio:
Acabei agora uma tradução grande e espero, finalmente, começar a pôr leituras e escrituras em dia.*
*Vou rabiscando umas coisas neste blogue, ligado à Com Texto (ainda que noutro registo).
Acabei agora uma tradução grande e espero, finalmente, começar a pôr leituras e escrituras em dia.*
*Vou rabiscando umas coisas neste blogue, ligado à Com Texto (ainda que noutro registo).
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