6.3.13

Amazon, esse papão

Por muitos, a Amazon é vista como um monstro a boa gente da Melville House não pára de nos avisar , por outros, como uma bênção. A Amazon veio revolucionar as vendas on-linecliché mas é verdade) e todos nós, profissionais da edição e leitores cosmopolitas, de uma forma ou de outra, acompanhámos de perto esse fenómeno. Contudo, nem sempre os  fornecedores, os clientes e os curiosos compreendem bem o que está por detrás desse colosso. Se gostava de saber mais acerca do funcionamento desse pedacinho do nosso mundo e tem 30 minutos para gastar, oiça esta entrevista, que vale bem a pena.

PS: Depois, abra esta janelinha e sorria.

23.2.13

Ao quadrado

Já se sabe que as novidades se sucedem a uma velocidade superior à da luz e que, de tão difíceis de acompanhar, por vezes desistimos de o fazer ou sequer de as assinalar. Desta vez vale a pena parar e dizer: há duas novas, e das boas. Uma, a revista Papel, sai às quintas e, editada por uma inglesa, está cheia de bom português. A segunda, que conheci poucos dias depois, é a Forma de Vida, bimestral, é toda ensaios e conversas. Ambas, curiosamente, com quadrados coloridos no rosto. A explorar devidamente, cada uma a seu ritmo.


PS: Ah, quase me esquecia (mas como se não soubessem já...), a Granta está à porta. 
PS2: Ia-me esquecendo outra vez! Na altura não noticiei, que estava ocupada, mas há uns meses nasceu o Edição Exclusiva, um blogue sobre a edição em Portugal. Tomem nota, que vale a pena seguir. (Apesar do subtítulo nada pretensioso, tem algumas reflexões bem interessantes.) Vai já para a lista de links.

4.2.13

Pequenos grandes mundos

 Three machines that want to know, 60 x 45 x 13 cm, 2012

 Elevator 109 x 56 x 14 cm., 2012



O senhor nas imagens acima, que ainda por cima parece um Gepetto, chama-se Marc Giai-Miniet e é o autor destas boîtes maravilhosas. Preciso de uma, naturalmente, mas já me contento em olhar para as imagens.

1.2.13

Autores/tradutores defraudados por editoras/impostoras


Joao Tordo · 1,832 followers
6 hours ago ·
caríssimos: nas livrarias anda uma promoção de um livro meu, Hotel Memória, a um preço irrisório que vos peço que não comprem. A editora desse livro, a Quidnovi, nunca me pagou os direitos de autor que me deviam e, agora, estão a vender os meus livros ao desbarato. Ou seja: eu não recebo um tostão e uma editora que enganou vários autores continua a meter dinheiro ao bolso. Fiquem-se pelo "Ano Sabático", e pelas minhas edições na Dom Quixote, que ficam muito mais bem servidos. Obrigado!
 
As redes sociais também são para isto.

16.1.13

Booktrailers

Ninguém liga muito a vídeos que são apenas apresentações Powepoint com movimento. Quando carrego play e é um desses, sinto-me traída. Como não tenho visto muitos booktrailers bons, em geral não carrego no play. Porém, de vez em quando, vejo bons vídeos promocionais. Há uns mesmo bons. E há uns meeeeeeesmo bons, como é o caso deste:




Diria que este é o booktrailer do ano, mas 2013 ainda agora começou e gosto de ser surpreendida

Já agora, isto sim é um lançamento + reportagem de lançamento:


15.1.13

Versão asiática


Não é só cá que se faz má publicidade a livros...

4.1.13

Tempo para ler

Adoro quando as pessoas dizem que não têm tempo para ler livros quando, na verdade, o que não têm é interesse (elas próprias ou no mundo). Têm sempre tempo para estar ocupadas ou para se distrair com qualquer coisa que «descanse a cabeça», isso têm.
A provar mais uma vez que tudo isso é um disparate, Jeff Ryan, pai de filhos, marido de mulher e trabalhador a tempo inteiro, propôs-se ler um livro por dia em 2012: 366 livros em 366 dias. E conseguiu. O artigo, que conta como foi, está aqui e recomenda-se. Que sirva de inspiração.

Bom 2013!

1.1.13

2013

A aventura continua. Agora de tablet na mão.

18.12.12

Para quem gosta de papel

Há os perfumes e as cartas de direitos. Felizmente, há muitas maneiras de se gostar de uma coisa.

17.12.12

Livros no telemóvel

Há uns anos, disseram-me que os japoneses liam livros no telemóvel. Também me disseram que os seus livros eram impressos em papel de jornal e que os deitavam fora depois de os ler ou que os largavam algures num sítio público. Apegada que sou aos objectos, fiquei espantada, mas lá acreditei, por já conhecer a sua falta de espaço em casa e o seu desprendimento e sentido prático (para algumas coisas). Agora aquela do telemóvel é que eu não engolia. Era invenção. Eu, no meu pequeno ecrã verde com letras pretas aos cubinhos, pouco mais lia do que três linhas de SMS de cada vez como seria possível ler um livro ali? E como funcionaria? Pagava-se a uma entidade que nos ia enviando parágrafos em SMS? A caixa de mensagens não ficaria cheia?
O engano foi-se desfazendo devagar, aos bocadinhos, e lá fiquei a saber como era. Hoje, a pensar no que tinha lido neste ano que termina, apercebi-me de que li no telemóvel, entre metro e salas de espera, um livro que em papel tem 800 páginas, um outro de 500, indo a 20% de um terceiro, de 500. Não restam dúvidas, vivo no futuro.

10.12.12

Plataforma

O presidente executivo, o director-coordenador de edições gerais, o director-coordenador comercial e de marketing e o director de sistemas de informação da LeYa (ufa) vão inaugurar, amanhã, uma «plataforma de autopublicação* e obras digitais». Ena.

Vamos ver o que aí vem.

*A piada não é minha, mas é genial: Se os autores vão dispensar as editoras, que dispensem as nossas.


7.12.12

Livremo-nos

Chegou a época do Natal e, com ela, a pergunta «o que o oferecer a X, Y e Z?». A resposta é simples: LIVROS. Há-os para todos os gostos, idades e preços. E se o recipiente não gostou, troca-se! Dá-se um objecto bonito, que fica, que não choca com a decoração, e ajuda-se uma indústria importante que, apesar de estar cheia de malucos e incompetentes, também alimenta muito boa gente. Perfeito, não é?

Ah, mas e a crise e tal.

Alto. Se tem receio de entrar numa livraria, ele há feiras. Muitas feiras. Para começar, a Festa dos Livros da Gulbenkian. Para acabar, a da Gare do Oriente, com coisas óptimas da Bertrand, Círculo, Temas e Debates, Quetzal, etc. a 50% do preço original. (Sim, são sobretudo livros do universo Bertrand, mas não só.) Portanto, não há desculpas.

Vá, não se arme em moderno, a oferecer e-books. Saia de casa e vá num safari livresco, de lista em riste. Em três tempos terá sacos cheios de boas pechinchas. Boa caçada!

4.12.12

O mal-estar na Civilização II

Depois deste meu post,  passei por uma grande superfície comercial e fui espreitar os livros. Eis a ficha técnica:


Tanto quanto sei, os departamentos editoriais das editoras não desenham capas...

Os livros, em si, são objectos agradáveis. Pena é cheirarem a esturro.

3.12.12

Downton Abbey à portuguesa



Theresa Castello Branco, no seu óptimo blogue Libri Librorum, anunciou há uns meses que iria tentar publicar uma obra em vários volumes intitulada Uma Época, uma Sociedade, uma Família. O séc.XIX na correspondência de D.Teresa Sousa Botelho, condessa da Ponte e suas filhas 1834-1911. Pela amostra, parece óptima. Espero que alguma editora aceite o desafio. Gossip histórico e ainda por cima nacional? Com umas letras douradas na capa em tons de rosa-velho, nem era preciso juntar-lhe brindes para se vender como pães quentes.

Câmara Escura

A Paula Moura Pinheiro era a Nigella Lawson da cultura portuguesa.  
So long.

29.11.12

O mal-estar na Civilização

A Civilização acaba de lançar uma nova colecção. Eis o que está no Facebook:


«A  Civilização reedita uma coleção de clássicos intemporais que enriquecerão a biblioteca de qualquer pessoa. Clássicos de sempre, da literatura portuguesa e mundial, com capas modernas e atrativas:

- A Queda Dum Anjo | Camilo Castelo Branco
- Jane Eyre | Charlotte Bronte
- O Monte dos Vendavais| Emily Bronte
- A Túlipa Negra | Alexandre Dumas
- Orgulho e Preconceito | Jane Austen
- O Primo Basílio | Eça de Queirós
- Nossa Senhora de Paris | Vítor Hugo
- Madame Bovary | Gustave Flaubert

Os títulos têm um preço muito apelativo, fazendo destes livros uma prenda perfeita para este natal!
Procure-os numa livraria ou hipermercado.»


De imediato, reconheço o grafismo. Tem mais do que meras semelhanças com as capas de outra editora:





Estas, as bonitas, foram feitas por Coralie Bickford-Smith para a Penguin Classics. As outras, da colecção Clássicos, não imagino. Terei de consultar um exemplar.

Vês-se bem que não são da mesma autora. Dúvidas houvesse, bastaria comparar as capas dos relógios, a d' O Primo Basílio e a de Oliver Twist. Quem faz uma não faz a outra, e vice-versa.

Além de o design ser uma cópia descarada, o caso assume contornos mais estranhos: a Civilização é detida pela Dorling Kindersley, que, por sua vez, pertence à Penguin almighty.

O que se terá passado aqui, afinal?

Mensagens subliminares

Há-as em engenhosas capas de livros:


E em alguns convites para lançamentos:



27.11.12

Em dia de vencedores

Uma homenagem aos vencidos:


Bonecos de Grant Snider.

(Obrigada, P.!)

21.11.12

Dá que pensar


(Pobre homem. Como se arranjará ele quando quer ler alguma coisa que não está digitalizada?)

17.10.12

Nome Grande, Letras Largas

Já terão reparado que, quando um escritor é pouco conhecido, o elemento de texto que surge com maior visibilidade na capa é o título. À medida que o nome do autor vai ganhando reconhecimento junto dos leitores, passa a ser esse o elemento destacado. Embora isto não seja uma regra fixa, é o que acontece na maioria dos casos.
Exemplos:





O equilíbrio ora pende para um lado, ora pende para outro, mas as proporções costumam ser respeitadas.
Agora veja-se este absurdo: 
 Conseguem ler o título?



No mínimo, um grande contraste com a capa da edição anterior:

9.10.12

Um manifesto

Vale a pena ler este manifesto a favor da crítica e dos críticos. Ficam aqui os meus sublinhados:

The serious critic cannot be a monomaniacal controversialist.

Particularly in a culture that is awash in hype and promotion [...], a vital function of the critic is to peel away the swoony publisher’s hype, the self-congratulation of an author’s Twitter feed, and to reorient the conversation to where it belongs: the work and its merits and flaws, as judged against genuine knowledge and disinterested taste. 
 
There is usually something to like in even the weakest work—just as there is nearly always some weakness in the strongest work; most reviews, if anything, should be somewhat mixed. 
 
When you write criticism about literature or any other subject, you’re writing for literature or that subject [...].
 
The role of the critic, I repeat, is to mediate intelligently and stylishly between a work and its audience; to educate and edify in an engaging and, preferably, entertaining way. (Critics, more than any other kind of writer, should have a sense of humor.)

The fact is that criticism is its own genre, a legitimate and (yes) creative enterprise for which, in fact, very few people are suited—because very few people have the rare combination of qualities that make a good critic, just as very few people have the combination of qualities that make a good novelist or poet.

 

4.10.12

Bancos de imagens

Na edição, os bancos de imagens podem ser usados para o bem, para o assim-assim, mas também para o mal:


Me-do.

Mais aqui.

2.10.12

Exactitudes

A fazer lembrar capas de livros:


Mais aqui.




30.9.12

Avril au Portugal

Há tanto a dizer sobre isto! Os bancos de imagens, o funcionamento dos «ateliers», a manipulação de fotografias, as responsabilidades de um editor, a conturbada relação capa-conteúdo, a promoção de equívocos, o papel do humor na crítica, o diálogo do crítico com o autor... 
Gostaria de falar de tudo isto, mas, por ter muito que fazer (não é bem a novela ao lume, mas quase), só posso deixar uma pequena nota:

A editora e a equipa de Cayatte asnearam, António Araújo e muito bem apontou. O designer acusou o toque e respondeu. Óptimo. É este o efeito de uma boa crítica.
Há só um problema: a defesa de Cayatte deixa algo a desejar. Passando por cima dos aspectos «isso-não-é-uma-crítica-é-uma-ofensa» e outros, ao fim e ao cabo, o que diz é que lhe pareceu bem e aos seus clientes ilustrar um livro sobre o 25 de Abril com uma imagem do Maio de 68 porque, alegadamente, «Paris e o Maio de 68 são aí referência importante». António Araújo afirma que não, que não são referências na obra, e sou levada a acreditar.

Henrique Cayatte poderia ter dito outra coisa. Que tinha escolhido a imagem por ser evocativa da relação dos protagonistas, por não ter encontrado uma fotografia tão boa como essa, que estava ciente de que havia essa valente discrepância histórica e que a tinha assumido desde o início, que a escolhera por ser bonita, por funcionar na livraria ou por quaisquer outros motivos. A porca torce o rabo é quando se quer convencer o interlocutor de que o conteúdo do livro legitima o uso de uma imagem extemporânea. O livro chama-se Cinzas de Abril e é sobre um par que atravessa os dias da revolução em Portugal. Por muitas voltas que se dê, a acção não é sobre o par a atravessar o boulevard, a ponte 25 de Abril ou qualquer outro tempo ou lugar.

É um erro retratar ou simbolizar um acontecimento com a imagem de outro? Claro que é. Pode ser um erro que funcione visualmente e em termos de vendas, mas é um erro.
Uma capa não tem de ser, na maior parte dos casos, o resumo ou o espelho do conteúdo, mas, sempre que possível (e é sempre possível), não deve induzir em erro. Um editor, um autor e um designer, três cabeças a pensar, podiam ter pensado nisso. Não pensaram, daí a crítica. 

A coragem e a frontalidade de responder a uma crítica são atitudes muito louváveis, mas realmente louvável seria reconhecer que houve um deslize. Que o pé fugiu para o mercado, para o fácil ou para o agradável. Acontece. Às vezes, aos melhores.

Pode ser que a próxima resposta de Henrique Cayatte a António Araújo seja mais consistente. Pode ser que a próxima edição do livro saia com uma capa mais certeira.

Romance histórico


13.9.12

A mancha

Na passada sexta-feira, Philip Roth publicou na New Yorker uma carta aberta à Wikipédia. Ao que parece, o artigo relativo ao seu livro A Mancha Humana conteria um erro que o autor tentou remover sem sucesso. Os editores do artigo defendiam que a personagem principal do livro era baseada numa dada pessoa quando, afinal, se tratava de outra. O artigo, entretanto, já foi modificado e inclui, até, referência à carta aberta.

A carta de Roth é longa e pormenorizada. Demasiado longa, a meu ver. Li-a até ao fim apenas para tentar ver se, mais para a frente, o autor acrescentaria alguma coisa de interessante. Nem por isso. Os primeiros dois parágrafos são tudo quanto vale a pena. O resto é Roth a explicar-se ao mundo, qual vítima de um julgamento que nunca aconteceu. Os editores da Wikipédia, bem como alguns críticos, concluíram erradamente uma coisa. Acontece a toda a hora e ainda bem que o autor está vivo para repor a verdade. Porém, não é nenhum drama, nem justifica uma autópsia do romance em praça pública (Roth chega a contar o desfecho da obra). Bastaria relatar a troca de correspondência com o administrador da Wikipedia, dizer de sua justiça eu, Autor, afirmo isto e nego aquilo e seguir em frente, em direcção a coisas mais importantes.

Este texto parece-se com o livro: muito mais palavroso do que poderia ser, perdendo, assim, todo o interesse. (Ainda por cima, fiquei a saber que aquilo que romance tinha para mim de valioso o ponto de partida é, na verdade, não fruto da imaginação do autor, mas decalcado de factos reais. Um ponto a mais para a realidade, um ponto a menos para o autor.) Não terminei o livro, largando-o ao fim de 50 páginas (dei o benefício da dúvida até onde pude), precisamente por ele ter tudo a mais. Palavras a mais, parágrafos a mais, páginas a mais. Podia ser que o ritmo ajudasse à história, mas, até onde li, não.

Nem todos têm o dom da concisão, nem a concisão é sempre uma coisa boa, mas Roth é um chato. Quando se começa um artigo a questionar o papel do criador de uma obra face ao que os enciclopedistas virtuais alegam sobre essa obra, tocando num ponto sumarento “I understand your point that the author is the greatest authority on their own work,” writes the Wikipedia Administrator — “but we require secondary sources.” , não se pode não reflectir sobre isso e passar a descrever minudências: «I never took a meal with Broyard, never went with him to a bar or a ballgame or a dinner party or a restaurant, never saw him at a party I might have attended back in the sixties when I was living in Manhattan and on rare occasions socialized at a party.» A sério, Sr. Roth, vai enumerar todas as circunstâncias em que nunca se cruzou com o indivíduo em que alguns acreditam que o livro se baseou?

Outro ângulo interessante, que Roth não explora, claro, é o da coincidência entre o que aconteceu com o seu amigo Melvin, a pessoa em quem o protagonista do romance é baseado, e com Broyard, a pessoa em que a personagem poderia ter sido baseada. É preciso reconhecer as coincidências que deram origem à confusão. Não é incrível como, sendo todos nós tão diferentes, sejamos todos tão parecidos? Não é curioso que tenham existido na mesma altura diversas personagens, pelo menos duas reais e uma fictícia, a partilhar tantas semelhanças? Não é engraçado? E literário? É. Só Roth não é engraçado. Nem literário. 

12.9.12

Context first


Nesta palestra, apresentada numa conferência TOC for Publishing, Brian O'Leary fala de uma mudança necessária e inevitável. Não de formatos, de paradigma.
É tudo como diz? Vai ser como prevê? Creio que em boa parte sim, mas preciso de mais tempo para responder. As mudanças são tão velozes e, por vezes, tão inesperadas, que até uma teoria sobre elas parece demasiado definitiva.

10.9.12

Como ganhar uma discussão sobre livros electrónicos

Não tenho grandes dúvidas de que os dois formatos são diferentes mas compatíveis. No entanto, todos os dias oiço e leio discussões quanto ao melhor formato ou ao formato que sairá vitorioso. Sente-se mais grego ou mais troiano? Espreite aqui.

5.9.12

Cortázar

«Numa aldeia da Escócia vendem-se livros com uma página em branco, página perdida num lugar qualquer do volume. Se o leitor der com essa página às três da tarde, morre.»

Histórias de Cronópios e de Famas, com tradução de João Alfacinha da Silva ().

4.9.12

De volta

Uns dias em praias espanholas encheram-me de alegria ao ver o futuro: toldo sim, toldo não, gente com um livro nas mãos. (Isso e boliñas.) E quando não eram em papel eram electrónicos. Foi bonito. Já tenho saudades do futuro.

2.8.12

(N. do T.)

Estou a ler o Moby Dick e a gostar, naturalmente (embora lhe fizesse uns cortes aqui e ali). Encontrei num alfarrabista uma bela edição, da Estúdios Cor, com tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves. 

Estas traduções antigas são a minha madalena. Há cinquenta anos o vocabulário era outro e isso muda tudo. Enquanto leio vou recuando no tempo e a viagem desculpa as vírgulas mal colocadas e quaisquer outras atribulações menores. Além disso, as marcas dos chumbos tipográficos saltam à vista e essa artesanalidade dá um quentinho extra à leitura. Cresci com a colecção «Dois Mundos» e a minha Mafalda é a das traduções dos anos 70, talvez a nostalgia venha daí. Mas adiante.

A tradução está bem feita e a primeira gralha só a encontrei lá para a página 80. Não sou defensora acérrima de um tipo particular de tradução — mais próxima da língua de partida ou da de chegada, com o tradutor mais discreto ou mais à vista —, ela tem é de ser competente e a adequada para o livro em causa. Neste caso particular, estou bastante ciente da presença do tradutor, que me tem feito uma agradável companhia. Aquilo por que não esperava era que ele se pusesse a dizer de sua justiça quanto ao autor, a outros tradutores ou à literatura em geral. Ora espreitem:



Eis o parágrafo a que a nota diz respeito:


Já vi, e até já fiz, muita coisa fora do normal, mas opinar desta maneira é para mim uma novidade. Não me incomodou minimamente, mas fiquei espantada, pois este género de considerações costuma pertencer aos bastidores.
Resta saber qual dos dois, AM ou DG, foi o atrevido.*

Para terminar, deixo-vos uma das muitas pérolas de Melville neste clássico:




* Costumava achar que as obras com dois ou mais tradutores eram feitas em colaboração, lado a lado, devido à complexidade do original. Entrando para a edição, rapidamente me desenganei trata-se quase sempre de uma divisão geométrica.


PS: Se fosse vivo, o senhor Melville teria feito ontem 193 anos.

1.8.12

Nível crítico: Panzer

António Araújo passa por cima de Domingos Amaral uma, duas, três e quatro vezes com um tanque de guerra. Vale a pena ler de fio a pavio a crónica deste desastre, a fazer lembrar a que Rogério Casanova dedicou a Margarida Rebelo Pinto. 

Claro que se pode discutir uma série de coisas e racionalizar o que se quiser, tendo sempre alguma ou muita razão. O certo é que sabe bem, de vez em quando, ver alguém chamar trampa à trampa. Essa confirmação faz-nos sentir um pouco menos loucos e um pouco menos sós.

Obrigada, AA, por um trabalho tão bem feito que fez com que a hilaridade superasse a depressão. Alguns dos seus trocadilhos mereciam ser tatuados.

26.7.12

Que farei quando tudo arde?

A temporada anual de incêndios faz-nos pensar. Na eficácia dos governos, no poder e na fragilidade da natureza, na nossa natureza, no que temos e no que perdemos, em quantos somos, no pouco e no muito que podemos.

Já todos nos perguntámos o que levaríamos connosco se um dia víssemos a nossa casa em chamas e tivéssemos de fugir. Não é um exercício tão fútil e tão raro quanto se possa julgar. A prová-lo, se precisássemos de mais provas, temos o livro The Burning House: What People Would Take if the House Was on Fire, um ensaio fotográfico sobre aquilo que mais nos pertence.


Espreitem aqui.

Há alguns hipsters, gente apegada aos seus Macs e às máquinas fotográficas (ou não retratassem amorosamente aquilo de que não se querem separar), há peluches antigos, livros e roupa. Até há um português. Mas há muito mais além disso. Estes montículos pessoais, amores portáteis, falam por si.

Pus-me a pensar no assunto e, apesar de a minha biblioteca conter algumas preciosidades, acho que não levaria nada de lá. Há muito mais vida além dos livros e, felizmente, ainda vivo num mundo em que há muitos e eles são quase todos substituíveis (não é, Sr. Bradbury?).

5.7.12

Valha-nos S. Gutenberg!

A Sociedade Bíblica é o exemplo perfeito de uma empresa que vive de um único produto. Nada de muito surpreendente, não fosse uma editora. Como têm de vender muito de um só produto (em vez de pouco de muitos, o modelo de negócio da maioria das editoras), têm de ser criativos e explorar variações. 
Lançaram A Bíblia do Surfista, oferecem vários tipo de encadernação, da ganga à camurça cor-de-rosa, e promovem uma aplicação que permite ler a Bíblia no telemóvel. Mas aquilo por que ninguém esperava era esta última inovação...


De facto, na Bíblia, há coisas para todos os gostos. Mal posso esperar pela colecção de histórias de suspense, em que irmãos matam irmãos, etc.

30.6.12

Planos para o fim-de-semana

Diz que há lá uma pessoas que põem coisas bonitas no papel.



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PS: por falar em pôr coisas no papel... ó eu, na maravilhosa Oficina do Cego.

28.6.12

Por que escrevo

Subscrevemos os mesmos sites, de certeza, porque eu ia fazer um post com isto e o autor do blogue Malomil antecipou-se. Ora espreitem.

Giro, não é? 

Conheço bem o Por que escrevo e outros ensaios, publicado entre nós pela Antígona, e os outros timeless insights on writing. O que este texto da Atlantic me lembrou foi de uma coisa extraordinária (para mim, claro): que não tenho motivo para escrever. Além de uma vaga necessidade de «pôr cá para fora» (vulgar, eu sei) como quem tem de vomitar de vez em quando* (desculpem-me, leitores mais sensíveis), de desenrolar uma meada interna, e do prazer de descobrir coisas que não sabia que tinha cá dentro, de ver as rodas dentadas a mexerem sozinhas, não há nada que justifique esta coisa de pôr as mãos à obra.

No ego, no beauty, no purpose. Não o faço para mostrar, não o faço para mudar o mundo, não me delicio com o fôlego estético do que gero, nem, pelo menos de momento, tenho um patamar imposto a que chegar. Talvez por isso saiba tão bem.

Se tivesse um objectivo, isso podia acabar com a graça. Numa vida de prazos, orçamentos, correcções, comparações, grelhas, burocracia, actas e pastilhas que tais, ler e escrever sem rumo são coitos. Aqui não vale, ninguém me apanha, as regras não se aplicam. No jogo do mundo**, às vezes sabe bem não participar.

Que eu saiba, não escrevo por nada, para nada, escrevo porque escrevo. Pode ser que isso mude, pode ser que não. E não saber por que escrevo é em boa parte motivação para escrever.
Se um dia descobrir uma razão concreta, aviso. Mas espero continuar na ignorância.

Tantos conselhos, tantas regras, tantas opiniões. Gosto muito, mas não me adapto a metade, se tanto. Para todas as perguntas que me fizerem acerca da escrita, a resposta será quase sempre «não sei», ou então formulada de improviso. Quando começo a achar alguma coisa, no dia seguinte desengano-me. Não escrevo escrevo; invento uma coisas, sem saber para onde vou. 

Isto tira valor ao que faço? Adivinhem a resposta: não sei. Acho que não, mas não estou interessada em saber; porque não importa.


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No fim de tantos conselhos sábios de tantos veneráveis, há ainda espaço para as minhas duas únicas humildes achegas, que nunca li em lado algum.
Gente que escreve ou pensa em escrever: tenham a coragem de não saber (quer queiram saber ou não) e a coragem de pôr os pés ao caminho apesar de não saberem.


* Coelhinhos de Cortázar. :)
** Segunda referência involuntária a Cortázar.

26.6.12

Fifty Shades of qualquer coisa

Para quem ainda não sabe, o livro Fifty Shades of Gray é uma obra de fanfiction com base universo Crepúsculo (sim, aquele dos vampiros). Apresenta-se como literatura erótica e chegou aos tops de vendas, muito graças ao anonimado que o download de livros electrónicos permite. 
Não li, nem preciso; esta crítica chega e sobra para me esclarecer e fazer chorar de tanto rir. Mas, entretanto, ficam algumas questões no ar: Será a fanfiction legítima? Até que ponto se pode reciclar uma receita?


21.6.12

Imaginário

Ben West e Felix Heyes acabam de lançar o Google Book, um dicionário de imagens. Pegaram nas 21 000 palavras de um dicionário, pesquisaram imagens no Google e «dicionarizaram» a primeira que apareceu. Eis o resultado:



Definitivamente, ceci n'est pas un e-book.

Podem ler mais sobre o assunto aqui

PS: Gosto especialmente da capa.

20.6.12

π-ssoa

Pessoa é infinito. Dá para tudo e para todos. O de Cavalcanti, além de poeta, é vaidoso, caloteiro, inventor dos matraquilhos (?!) e provavelmente gay
Depois desta entrevista, fiquei curiosa: saberia o brasileiro bonacheirão do que falava? O que é verdade e o que é invenção? Não corri para a livraria porque a ideia de alguém se aventurar, ao longo de 700 páginas, a imitar o estilo de Pessoa (as if) me deixou com fastio logo ali. Aguarde-se pela crítica, nesse caso. E ela chegou. Nas linhas que imaginei, mas muito mais demolidora do que poderia supor, Teresa Rita Lopes arrasa o livro, e o autor (ou co-autor?, cristo!), numa penada.
Eis o texto, que merece leitura integral: Incompreender Pessoa
Hoje, o Ípsilon, suplemento onde saiu a crítica de TRL, anuncia no seu Facebook que Cavalcanti terá espaço para uma carta-resposta na próxima edição em papel. 

São coisas destas que vendem jornais. Intelectual de mão na anca põe tudo a ler. Haja coragem de lavar a roupagem em praça pública, desde que se o faça com graça. Venham as polémicas! De preferência com elevação, mas se for mais pedestre o povo também não reclama. O que é preciso é mexer, debater e ter opinião. Eu sou team TRL, mas estou desejosa que me contradigam.


Cronologia:
5 de Abril - Blogue «Um Fernando Pessoa» faz uma apreciação crítica do livro (a meu ver, equilibrada).
20 de Abril - O autor é entrevistado pelo Sol.
26 de Abril - O livro é apresentado na Casa Fernando Pessoa.
4 de Maio -  Teresa Rita Lopes psicografa uma carta de Álvaro de Campos sobre a biografia.
6 de Maio - É emitida a entrevista ao autor na TVI24.
9 de Maio - O autor responde à carta de TRL.
25 de Maio - TRL publica a sua crítica no Ípsilon.
31 de Maio - Nova carta psicografada por TRL.
16 de Junho - Richard Zenith divulga no suplemento Q informações importantes.
16 de Junho - TRL, no DN, tem novo texto sobre o assunto.
22 de Junho - Sairá carta do autor no Ípsilon. Aguardemos.

19.6.12

Working class hero

Senhoras e senhores, a isto se deve o meu silêncio:


Acabei agora uma tradução grande e espero, finalmente, começar a pôr leituras e escrituras em dia.*

*Vou rabiscando umas coisas neste blogue, ligado à Com Texto (ainda que noutro registo).

16.4.12

Das coisas mais hilariantes (e tristes) que li nos últimos tempos

Deliciai-vos.

«LAYOUT - Design Editorial, Boas Práticas de Composição e Regras Tipográficas»

O sempre recomendável site tipografos.net está a comercializar um e-book sobre design editorial, da autoria de Paulo Heitlinger. 
Podem consultar os pormenores aqui e descarregar as primeiras 25 páginas do livro aqui.

12.4.12

Livro fumável

E se achavam que estes dez livros eram bizarros, o que dizer da obra que reúne algumas letras do rapper Snoop Dog, totalmente feita de cânhamo?




Livros e cigarros, senhor Orwell? Pelos vistos, podem ser uma e a mesma coisa...

Se ficaram curiosos, espreitem a notícia, que inclui um vídeo do autor.

Tipografia ao ar livre

No outro dia, parada num semáforo, olhei para a esquerda e dei de caras com um cartaz invulgar. Semicerro os olhos e percebo que é obra do Mário Feliciano, um dos mais conceituados tipógrafos portugueses, fundador da Feliciano Type Foundry. Fazendo uma pesquisa rápida, descobri que o outdoor que faz parte de uma iniciativa que envolve 18 artistas. É bom ver um tipógrafo entre eles, é bom ver letras à solta na cidade.



Não sei se já retiraram os cartazes (deixam tanto tempo os das campanhas eleitorais, bem podiam deixar estes...), mas o percurso está descrito aqui.

10.4.12

Editores do mundo, escutai!

Havendo muitos «livros secretos» disto e daquilo (vendas e não sei que mais), que tal publicar O Livro Secreto dos Livros Secretos? Se corresse bem, passávamos à sequela: O Guia Completo dos Guias Completos
Que digo eu? Estamos perante uma saga! O Manual Prático dos Manuais Práticos, 101 Respostas de A a Z, O Grande Livro dos Pequenos Livros.

Depois, para não cansar, variávamos um pouco: O Manual Prático dos Livros Secretos, 1001 Guias Completos para Consultar antes de Morrer...

16.3.12

Entrevista a Dulce Maria Cardoso



Ontem, na Sic Notícias, apesar da sua confrangedora atrapalhação, Márcio Crespo lá entrevistou Dulce Maria Cardoso, que, grande e amável (como só os grandes sabem ser), foi contando uma história pouco conhecida, a dos retornados, tema do seu último livro, O Retorno, recentemente publicado pela Tinta da China. 
Nunca li nada da autora, nem gostei especialmente do texto que MC leu no início, mas a sua autenticidade ao longo da entrevista fez-me querer saber mais dela, desta gente e deste período, uma odisseia de ontem e não uma anedota distante. 

Da entrevista retenho ainda uma ideia que Dulce Maria Cardoso referiu de passagem mas que merece sublinhado: «As possibilidades da literatura são tão grandes como as suas limitações.»

11.3.12

Winkingbooks



Para quem ainda não sabe, o site Winkingbooks é uma plataforma de troca de livros. De Saramago a  Stieg Larson, de George Steiner a Jorge de Sena, há lá um pouco de tudo. Parece-me um sistema relativamente justo (embora haja quem despeje livros miseráveis só para acumular pontos) e funciona bastante bem. Eu própria já agarrei boas oportunidades. Resumindo, recomendo.

29.2.12

Book (Fight) Club


Assim está bem. Contem comigo.

Malomil

Estou in love e in awe com o blogue Malomil, que nos brinda com pérola trás de pérola. Os temas vão da política às letras, passando pelas artes gráficas. Os pontos de vista do autor, António Araújo, oscilam entre o ácido e o melancólico e são sempre interessantes. Se não acreditam, espreitem a sua rubrica «Histórias da realidade improvável», este post sobre as capas de Cândido da Costa Pinto para a Colecção Vampiro ou este, uma recordação de viagem.

10.2.12

♥ Maurice Sendak ♥



Caras conhecidas

Já tinha sonhado com isto e afinal parece que nem é novidade: retratos-robot de personagens literárias a partir das suas descrições. 

Voilà Madame Bovary:
Via. Mais aqui.

5.2.12

« »

Sempre fomos uma terra de fenómenos. Agora estamos todos no entroncamento. À espera.

Vasco Santos

3.2.12

Ecos

« [...] Na época, era um verdadeiro campo de batalha [a Feira do Livro de Frankfurt]. Procurava-se descobrir a obra-prima desconhecida, procurava-se caricaturar a oposição. Circulavam anciãos respeitáveis, até cheguei ainda a ver Gaston Gallimard. O frenesi era tal que um dia, ao almoço, Valentino Bompiani, Paul Flamant, talvez Rohwolt e um outro de que não me recordo disseram que se alguém tivesse inventado um autor teriam todos ido à sua procura. E inventaram Milo Temesvar, que apenas teria escrito Let me say it now, pelo qual a American Library dera um adiantamento de 50 000 dólares (nos primeiros anos da década de 60). Bompiani volta do almoço, conta a história a Morando e a mim e começámos a andar de stand em stand a perguntar solenemente por Temesvar. Cerca das seis da tarde toda a feira estava em alvoroço. Às oito, num jantar, Giangiacomo Feltrinelli (nunca percebi se para desencorajar a concorrência e ter mais espaço livre para a sua caçada ou por estar mesmo convencido disso) afirma: "Desistam do Temesvar. Já comprei os direitos para todo o mundo." Para mim, Temesvar continua a ser uma pessoa da família. Algum tempo depois escrevi uma recensão falsa sobre ele, dizendo que havia sido expulso da Albânia por desvios esquerdistas e que havia escrito um livro sobre Borges intitulado Sobre o Uso dos Espelhos nos Jogos de Xadrez. Seria de pensar que uma pessoa expulsa da Albânia por desvios esquerdistas fosse absolutamente inverosímil, mas vim a saber que Arnoldo Mondadori tinha assinalado a vermelho aquele artigo, escrevendo "comprar imediatamente". Milo Temesvar retorna também na minha introdução de O Nome da Rosa. Resumindo, hoje estou também eu convencido da veracidade da sua existência. »

Umberto Eco, numa entrevista incluída no livro Guia de Leitura, da colecção «Mil Folhas», do Público

2.2.12

Gulag

Ontem à noite, num acesso de insónia, vi um documentário sobre as crianças do GULAG (mais aqui). Impressionante no mau sentido, devastador. Passou-se anteontem e já quase todos esquecemos. Ainda se pode fazer qualquer coisa. Na Coreia do Norte, outro escândalo, ainda há tudo a fazer.

Hoje, a espreitar a Pós dos Livros Vintage, vejo o primeiro volume de GULAG, de Solzhenitsyn. Tenho-o e ainda não o li, à espera de encontrar o segundo nalgum alfarrabista. Nunca o vi. Cheguei a duvidar de que tivesse sido publicado. Numa pesquisa rápida, para confirmar, dei de caras com isto. Artigo interessante, comentários muito reveladores. As pequenas coisas também ficam para a história.

PS: Se virem por aí o segundo volume, avisem.

1.2.12

Sinais dos tempos


Paulo Coelho homenageado no The Pirate Bay.  
Jean-Luc Godard dá 1000 euros a um pirata multado.
Vejamos o que ai vem.

31.1.12

«Os Maias» e a Meyer

A campanha da Fnac «A cultura renova-se» (que abrange livros, CD e DVD), com a frase «Troque Os Maias pela Meyer», gerou polémica nas «redes sociais». Isto deixa-me preocupada. O que li mostra que somos um país sem humor, mesquinho e sem perspectiva sobre as coisas. 



O ultraje manifestado roça o ridículo, nalguns casos. Li por todo o lado opiniões que diziam e insinuavam que «a Fnac está a querer comparar um bastião da nossa cultura e da nossa língua, o nosso Eça, a uma noveleira sem categoria»; «a Fnac, essa assassina de maravilhosas livrarias independentes, está a perverter leitores»; «era despedir imediatamente os responsáveis por isto»; «um verdadeiro atentado à leitura»; «o-mundo-está-perdido-onde-é-que-isto-vai-parar».
O que justifica este acesso de puritanismo generalizado?  Bem sei que este é o espírito subjacente à maioria dos comentários em jornais, blogues e Facebook, mas chegar a essas conclusões a partir de uma mera frase publicitária é realmente espantoso.

As pessoas que clamam pela cultura e pela língua internet fora fazem alguma coisa séria por elas? E quantos deles já leram realmente Os Maias? Os livros da Meyer «desencaminham» leitores? Querem convencer alguém de que os vampiros existem? Incitam ao ódio? Pretendem ser uma obra-prima? São do pior que para aí anda? Seria melhor tirá-los de circulação? Será que só livrarias de fraca qualidade os vendem?

Uma afronta ao Eça são os livros pejados de erros que por aí se vêem, publicados por editoras que, essas sim, têm uma grande responsabilidade na qualidade do que transmitem aos leitores.
Por exemplo, se há coisa que me incomoda nessa frase é o facto de Os Maias não estar em itálico ou entre aspas e haver uma vírgula antes de «pela Meyer».

Saberão os nossos arautos da cultura-com-c-maiúsculo qual a diferença entre uma campanha publicitária e uma recomendação do Ministério da Educação? Saberão eles que as pessoas podem usar a própria cabeça para analisar e escolher? Serão capazes de deixar os outros pensar por si e respeitar essas opções em vez de adoptar uma atitude paternalista?

Calculo que quem leu Os Maias e as histórias dos vampiros dê pelas diferenças. Acredito que não vai ser uma campanha publicitária a convencer ninguém de que a Meyer é tão boa ou melhor do que o Eça (muito menos se essa campanha não diz tal coisa). Desde quando é o marketing das livrarias que fixa o cânone literário?

Sobretudo, e nunca é demais sublinhar, o Eça vale por si e perdurará pelos seus méritos, não precisa dessa defesa fácil e populista.

Imagino que quem está disposto a trocar Os Maias por outra coisa ou já os leu ou não leria de qualquer forma. Trocar essa obra por outra — dando talvez a melhor a um outro leitor — parece-me uma excelente ideia. Os nossos leitores em potência bem precisam de descobrir o prazer de ler. Os editores bem precisam de escoar o que produzem (eternamente em excesso). Quem não tem acesso a livros e beneficia com esta campanha agradece.

Os Maias é um livro que quase toda a gente tem em casa (por ser obrigatório estudá-lo no ensino secundário e por ser um bibelot tradicional) e que quase ninguém leu. Praticamente toda a gente já ouviu falar da Meyer. A campanha está bem feita porque se adequa exactamente ao público a que se destina. Está ainda mais bem feita porque tocou no nervo autoritário/intelectual wannabe de muita gente e com isso fez mais barulho do que teria imaginado. (É uma pena que a Fnac tenha cedido à pressão e recuado, mas até isso deu que falar e, portanto, saiu a ganhar.)

«Os Maias pela Meyer» é um bom trocadilho. «A Meyer pel'Os Maias» teria sido mais bonito, mas assim também está bem. 
Numa caixa de comentários vi proposto um slogan alternativo: «Troque Camões pelo Camus». Tem piada, mas não seria tão eficaz e poderia ferir a susceptibilidade lusa. Os novos patriotas surgiriam dos seus esconderijos, indignados, exigindo satisfações. 
Lembrei-me de «Troque a sua Bíblia pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo», mas a Fnac teria a Igreja à perna. Ela incorreria no mesmo erro — levar a sério uma coisa que foi feita a brincar, para chamar a atenção.

Em Portugal, ao que parece, brinca-se muito à cultura mas com a cultura não se brinca. Que pena.

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Fnac e livrarias independentes
A reboque disto, aproveitou-se  para dizer que a Fnac é o lobo mau do inocente e saudoso comércio tradicional. Quer se goste quer não, a Fnac fez muito pelos leitores de Portugal e continua a fazer — esta campanha, de certa forma, é a prova. Uma frase publicitária não deveria preocupar-nos. O espaço nas Fnacs dedicado aos livros, cada vez mais pequeno (porque os videojogos e os gadgets trazem mais gente às lojas), é que deveria deixar-nos alarmados. Não são só os senhores da Fnac que optam por diminuir este espaço, somo nós, consumidores de livros, que não aumentamos em número e que optamos por outras coisas. Da mesma forma, a Fnac não matou as livrarias independentes. Fomos nós que deixámos de lá ir e/ou elas que se suicidaram lentamente. Todas as moedas têm dois lados, há que pensar neles e assumir as responsabilidades.


A solidariedade da campanha
Li também que a Fnac não era realmente generosa nesta acção, pois lucra alguma coisa com o assunto. Isto dá pano para mangas e este não é o sítio para o debater. Em todo ocaso, acrescento apenas que uma outra cadeia de livrarias, por exemplo, promoveu recentemente uma campanha em que convidava os clientes a comprar livros nas suas lojas e a doá-los, não oferecendo nada nem à instituição nem ao cliente.

Pérolas I


Montra de uma livraria no Campo Pequeno. (2009)

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A critic is someone who enters the battlefield after the war is over and shoots the wounded.

Murray Kempton

Wikilivros

Através do blogue Malomil, fiquei a conhecer os wikilivros que alguém anda a publicar em regime print on demand via Amazon. São compilações de artigos, feitas de modo automático (o nome das «editoras», Alphascript e Betascript, sugerem que o maestro da coisa tem ligações à informática), que agregam conteúdos vagamente assemelhados, dando-lhes a forma de livro. Há sempre uns organizadores da obra que dão o nome por aquilo, e o facto de se tratar de material da Wikipédia não é propriamente ocultado.


Na imagem acima, temos a capa de um «livro» que ora aborda um hospital militar chinês, ora fala das relações sino-japonesas de 1933 a 1936.

Porque é que alguém quereria comprar em papel conteúdo que pode obter gratuitamente on-line é coisa que me ultrapassa. Mas, com a tecnologia POD, se se vender um exemplar provavelmente a «editora» já faz lucro. Uma vez montado o programa que compila os artigos e compõe o livro, é só esperar que apareçam clientes.

Quanto às questões levantadas relativamente ao copyright, parece que é tudo legítimo. Se não é bonito andar a fazer dinheiro com conteúdo que autores disponibilizaram gratuita e generosamente, nada parece proibi-lo segundo a licença Creative Commons da Wikipédia.

Duvido que o arquitecto desta artimanha faça muito dinheiro com isto (pelo menos nestes moldes). O que me deixa apreensiva é o mecanismo. Por aqui se vê como não é difícil apanhar conteúdos que voguem na internet e usá-los para fins não inicialmente previstos.

Ver mais sobre o assunto aqui.

Campanhas II

Eis o vídeo desta campanha, disponível no canal Youtube da APEL desde meados de Dezembro.



Padre António Vox, Bono Vieira. Potato, potato.

Com o patrocínio dos Radiohead e dos livros da Babel.

18.1.12

Campanhas

A Milwaukee Public Library lançou uma bela campanha de incentivo à leitura, que tem dado que falar on-line:



Não me importava de ver uma coisa destas por cá.

Obrigada, S! :)

9.1.12

Dubito ergo cogito

15 anos de Ciberdúvidas. Década e meia de um excelente serviço prestado a todos os falantes e curiosos da língua portuguesa, que tem ajudado tradutores, revisores, professores, estudantes e o público em geral a navegar melhor pelo meio das palavras.
Obrigada, Ciberdúvidas — consultores, consulentes, cronistas e patrocinadores — por este tesouro que é de todos e que todos os dias cresce um bocadinho. 
É pela dúvida que se avança. É sim, senhor (deputado).

5.1.12

2.1.12

Listas

Há-as de tudo.
A Lake Superior State University elaborou a sua 37.ª List of Words Banished from the Queen's English for Misuse, Overuse and General Uselessness.

Eis algumas :
- Occupy
- Man Cave
- The New Normal
- Ginormous
- Thank You In Advance

Bom 2012!

Link
Via

Go to hell


Via

23.12.11

Boas Festas!

The British writer Richard Adams, appearing alongside Gore Vidal on That Was The Week That Was, called his work "meretricious."

"Pardon?" said Vidal.


"Meretricious."

"Meretricious to you," the American replied, "and a happy new year."

19.12.11

Of all the gin joints in all the towns in all the world...


Cada um tem o que merece, diz-se. Nós, se calhar, merecemos isto. Esta citação, desta  pessoa, numa campanha destas organizada por esta associação, neste país.  Mas não deixa de ser triste.

Votos de um natal lúcido e de um 2012 possível.