No Verão de 2013, além de ter lido O Verão de 2012, li o Consider the Lobster and Other Essays, de David Foster Wallace. Em bom rigor, acabei de ler. Já tinha começado o primeiro essay, que me parecera bom, ainda que um tudo-nada longo demais. O primeiro, felizmente, não era o melhor de todos eles, pelo contrário. Os que li depois, como Authority and American Usage, foram amplamente sublinhados e anotados. No Kindle. Ou melhor, na app Kindle do meu tablet, e em versão pirata. Up, Simba, por exemplo, foi lido de um só fôlego eufórico, com o coração aos saltos («Como é possível ser-se assim tão bom?!») em duas tardes de praia, mesmo com o reflexo do sol («sombras, preciso de sombras, óculos, chapéus, ponho-me de lado e assim consigo»). Novas notas tomadas. Quando acabei de ler o livro, decidi que iria comprá-lo em papel, para poder ressublinhar, reanotar, guardar, revisitar e emprestar. Tinha decidido o mesmo quanto a outro, que também lera e anotara uns tempos antes: Arguably, de C. Hitchens.
No Inverno de 2013, após uma actualização a contragosto, a app Kindle do meu tablet apagou todas as notas que alguma vez fizera a todos os livros que lá tinha. To-dos.Encarei-o com a equanimidade possível. Além do que, uma parte de mim sabia que o merecia por 1) ter confiado num aparelho para uma coisa tão importante e 2) ter lido versões pirata. Não voltei a cair nesse erro e não mais cairei nele no que disser respeito a obras-primas.
Na Primavera de 2014, encomendei esses dois livros de bom grado, sabendo que os relerei e conservarei com gosto. Já tenho o primeiro, o do Wallace. Além da alegria de rever um bom amigo, um bónus: Host. Um último essay que não constava do e-book por ser graficamente complexo. Que felicidade!
Ah, e antes de o reler e de o personalizar, vou dá-lo a ler a uma pessoa especial. Estive à espera do exemplar em papel, que as cumplicidades e outras coisas privadas não se partilham tão bem num tablet.
Foi um ano de poucos posts. Quando penso nisso, sinto alguma pena, mas não dura muito — outros fazem-no tão bem ou melhor do que eu, a minha freguesia, embora importante, não é muita, e, sobretudo, tenho mais que fazer. Enquanto tiver mais que fazer, os blogues ficarão para segundo plano. Em todo o caso, são projectos em curso, longe de falecidos. Como eu.
Para post de despedida calendária, um balanço, um único, que os outros são interiores, o dos livros que li em 2013 (além dos que escrevi, revi e traduzi, e não incluindo as centenas de artigos consumidos), mais ou menos por ordem de leitura:
Confessions of a Buddhist Atheist, de Stephen Batchelor (no tablet)
Berta La Larga, de Cuca Canals
O Ente Querido, de Evelyn Wagh (trad. de Jorge de Sena, com uma ou outra coisa a melhorar)
Hitch 22, de Christopher Hitchens <3 <3 (no tablet)
The Fran Lebowitz Reader, da mesma
O Sistema Periódico, de Primo Levi (com uns capítulos melhores do que outros e com um particularmente bom)
A Terra das Ameixas Verdes, de Herta Müller
Afirma Pereira, de A. Tabucchi
O Templo Dourado, de Mishima (que não li até ao fim, por já estar satisfeita)
Auto-de-fé, de E. Canetti
A Short History of Nearly Everything, de Bill Bryson (no tablet)
Consider the Lobster and Other Essays, de DFW <3 <3 <3 (no tablet)
O Verão de 2012, de Paulo Varela Gomes
A Bíblia do Caos, de Millôr Fernandes
O Fogo e as Cinzas, de M. Fonseca
Tanta Gente, Mariana, de M. J. Carvalho
The City and The City, de China Miéville (no tablet)
Contos, vol. I, de Tchékhov (ainda por terminar, está na m-d-c, será um por noite) A Noite e o Riso, de Nuno Bragança Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso,
de D. Klein e T. Cathcart Maus, de Art Spiegelman A Livraria Noite e Dia do Sr. Penumbra, de R. Sloan A História de Rosa Brava, de J. Régio Both Flesh and Not, de DFW <3
A Supposedly Fun Thing I Will Never do Again, de DFW <3<3
Peguei noutros, mas desinteressei-me e não contam.
Também na m-d-c, para terminar ou começar ainda este ano:
Love, Poetry and War, de Christopher Hitchens <3
Em Busca do Tempo Perdido, vol. I, de M. Proust
S., de J. J. Abrams e Doug Dorst
Para o ano? Acabar o D. Quixote, que ficou a meio, a Bíblia, Rayuela (a ver se é desta que passo das primeiras páginas e avanço sem medo de ficar esmagada), Guerra e Paz, A Divina Comédia e mais uns quantos clássicos que consiga deglutir, entrecortados com disparates, para não variar. A ver se faço outra lista destas no fim, que tem graça.
Espero que tenham tido um bom Natal (com livros, além de meias e chocolates) e que 2014 vos seja leve.
"I've got a whole stack of books in my cart. Most of them are advance copies. I know a place where they get thrown out."
"How many books have you read?"
"Thousands."
"So why are you homeless?"
"I've tried to work a job a bunch of times. But then I get sad, and then I get high, and things fall apart."
Todos os bibliófilos já passaram por isso: pilhas de livros comprados (apesar de não haver tempo para os ler) e empilhados em mesas-de-cabeceira, estantes, chão e afins. Os japoneses — claro! — têm uma palavra para isso: tsundoku.
A questão é que ter uma palavra para o problema não o diminui...
PS: Os japoneses, uma civilização com casas bastante pequenas e que, ao que parece, tem até uma palavra para «quando saímos do cabeleireiro pior do que entrámos» (Age-otori).
PS2: Se gostam de palavras, de japoneses e de cores, recomendo vi-va-mente este artigo.
Há dias, o nosso presidente da república em Havana, perdão, em Bogotá, discursou no âmbito da Feira do Livro dessa cidade (que é mais um festival literário do que uma livraria ao ar livre). Portugal é o país convidado, estiveram presentes muitos autores do nosso canto do mundo e fazia sentido que Aníbal Cavaco Silva dissesse umas palavrinhas a propósito.
O que não fazia qualquer sentido era considerar obrigatório que o nosso presidente, por quem nem nutro especial simpatia, tivesse de citar obrigatoriamente o nosso nobelizado Saramago, a quem até acho graça, no seu discurso. Por alma de quem? Do falecido?
El Presidente fez uso da sua liberdade de expressão, citou Camões muito bem e até Vergílio Ferreira («Da minha língua vê-se o mar.»). Elogiou García Marquéz, referiu Jerónimo Pizarro e Álvaro Mutis. Para mim, já chega de name-dropping.
Saramago, que tem um Nobel, uma bela fundação, best-sellers e milhares de leitores precisava agora que um homem que desprezava o referisse? Acho que até agradecia o silêncio.
Assim, não percebo a onda de indignação que varreu tudo, dos notíciários ao Facebook. De repente, até parece que não temos mais com que nos indignar. (Mas depois lembrei-me de que estou em Portugal.)
Para o aluguer do espaço?
Como a Câmara é entidade parceira e a realização do certame é do interesse da
população, creio que disponibiliza o espaço gratuitamente. Pelo menos no caso do Porto é assim.
Para o pessoal da APEL?
Os funcionários que a APEL tem na feira são os mesmos que integram a sua
estrutura ao longo do ano. Mas posso estar enganada.
Para animação cultural?
Pelo que vi em várias edições em que participei, essa é trazida ou pelos expositores
ou pela câmara/outra entidade associada (como bibliotecas, por exemplo). Mas imaginemos que a APEL convida artistas no valor de 10 000 €. (Por 7500 €, já conseguimos um Quim Barreiros.)
Então, se não for para isso, irá:
Para o pessoal da montagem/manutenção?
Certamente. Deslocar e montar o equipamento exige mão-de-obra. Várias
pessoas a trabalhar durante uma ou duas semanas e mais uma semana para a
desmontagem.
Depois há electricistas e equipas de limpeza para as casas-de-banho, etc.
Contabilizemos 20 000 € (100€ dia/pax, para uma equipa de 10 pessoas montar os pavilhões em 9 dias e desmontá-los em em 5 dias = 100 € x 10 pax x 14 dias = 14 000 €, a que se somam 6000 € de custos variados)
Para aluguer/compra de equipamento?
Certamente. São necessárias casas-de-banho móveis, colunas
de som e microfones para os anúncios, tendas para eventos, etc.
Claro, há sempre custos inerentes a uma operação destas; custos que, como leiga, desconheço. Suponho que sejam armazenagem dos pavilhões durante o resto do ano, comunicação (site, folhetos, divulgação), etc.
Contabilizemos 50 000€
Mas…
Mão-de-obra para montagem/manutenção, aluguer/compra de
equipamento e outros custos inerentes… todos somados… dão 338 400 € (contas por baixo)?
338 400 € dá para comprar dois bons apartamentos vista rio e ainda sobra para a decoração.
As contas que fiz acima, resultam em 95 000 €. Arredondemos, já que eu não tenho noção nenhuma, para o DOBRO = 190 000 €. Isto continua a ser METADE do que a APEL ganha com aquilo que cobra aos participantes.
Fiz todas estas contas por aproximação porque existe um problema de falta de informação. Nunca a vi em lado nenhum e nunca estive em posição de a pedir à APEL (e agora que não trabalho numa editora, menos ainda). Mas a curiosidade persiste.
Quanto às notícias da não realização da Feira do Livro do Porto, ajudem-me a perceber, porque sozinha não consigo.
Até aqui, estes foram os números da Feira do Livro de Lisboa. No Porto,
costuma haver menos participantes e, com certeza, há algumas variações nos custos. Mas,
mesmo que seja menos lucrativa, com 170 000 € de dinheiro das inscrições dos participantes (metade),
vá, não se faz uma feira? Se a Câmara já deu os 300 00 € acordados para adquirir pavilhões e se esse valor foi para os pagar e foi suficiente para os comprar, como é que a feira era viável em anos anteriores (no ano passado!) e não é este ano? Mesmo com despesas de
alojamento de algum pessoal que vai de Lisboa, imagino que 170 000 € (contas por baixo, pois ainda há patrocícios) sejam suficientes — até porque uma feira mais pequena tenderá a ter menos custos. E mesmo, MESMO, que não seja suficiente para cobrir despesas, o lucro que a APEL faz com a FLL não chega para financiar a FLP?
Esta foi a parte da matemática.
Agora a parte política: faz sentido, sobretudo depois de feitas as contas, pedir anualmente 75 000 € (ou outra quantia deste calibre) a uma Câmara, seja ela qual for, para a realização de uma feira destas —que tem inegável relevância cultural mas que é, para todos os efeitos, uma livraria gigante ao ar livre mais do que um festival literário ou qualquer outra coisa—? A mim, parece-me absurdo.
Eu gosto muito da Feira do Livro, apesar de todos os seus defeitos. E sei que estas feiras são a principal fonte de
rendimento da APEL, além das quotas dos associados, e que é com esse valor que
a associação se mantém activa, pagando aos funcionários, assegurando gratuitamente o serviço de ISBN, etc. Mas, quando uma
Câmara nega continuar a dar 75 000 € para a realização de uma feira — que pode gerar 170 000 € para a organização (antes de despesas), criar postos
de trabalho, dar vendas e visibilidade aos editores (o seu principal objectivo), ser importante para a vida
cultural da cidade, etc., — a mesma passa a ser inviável para a APEL? Custa-me a crer. E mesmo, MESMO, que seja inviável, não vale a pena repensar o modelo em vez de desistir ou de insistir* no erro? Repensá-lo para bem dos editores, que, afinal, são a APEL? Para bem dos visitantes, que são a razão de ser das feiras? Acho que vale. Vale a pena repensar tudo.
Para terminar, aqui fica uma pérola em forma de vídeo, no qual o benévolo leitor pode ouvir os protagonistas por si mesmo e beliscar-se enquanto o faz:
Cito a locutora, para o caso de lhe ter escapado: «A APEL afirma que a feira não pode ser realizada sem que a Câmara do Porto entre com o dinheiro com que se comprometeu.»
E repito as palavras da vereadora, para os benévolos ouvidos mais distraídos: o valor acordado já foi pago na totalidade, a Câmara cede o espaço, outros serviços e está disposta a dar um apoio adequado às realidades do país, mas não foi possível chegar a acordo com a APEL.
Portanto, quando defendemos o dinheiro dos contribuintes estamos a ser economicistas. Quando defendemos os interesses de uma classe de empresas estamos a ser sentimentais. Percebi bem?
PS: Já em 2011, quando se estimou os danos nos pavilhões causados pelos adeptos do FCP em 40 000 €, os números me pareceram altíssimos. Mas isso sou eu, que 1) ganho poucochinho e, portanto, tudo o que tenha mais de três zeros me parece uma fortuna e 2) não percebo nada de carpintaria. (Cá para mim, há uma fábrica de pavilhões qualquer que enche os bolsos com esta história toda.)
PS2: A APEL diz muito bem da CML, por comparação com a CMP. Gostaria de saber quanto do nosso dinheiro sai do nosso bolso, passa pela CML e acaba na APEL. Só por curiosidade.
*A APEL disse que voltaria a tentar organizar a feira para o ano, quando os protagonistas na CMP fossem «outros». Suponho que pense fazê-lo recorrendo ao mesmo modelo, um modelo que afirma não ser viável sem subsídios.
Feiras do Livro de Lisboa e Porto, APEL,
dinheiros públicos, uma novela venezuelana com política e farturas à
mistura. Nos últimos anos, quase sempre na hora H, a Associação Portuguesa de
Editores e Livreiros (!) avisa que a realização da feira está em perigo, por
um fio de ovos, por um cabelo de serafim. A Cultura passa-se, faça-se um novo
25 de Abril e a feira lá se faz, num qualquer Abril com frio e chuva ou num
Maio/Junho mais soalheiros. As polémicas são muitas — barracas novas ou
antigas, maiores ou mais pequenas, iguais para todos, umas mais iguais do que
outras ou todas iguais todas diferentes, se há casas-de-banho portáteis,
descartáveis, unissexo ou se vamos todos à mata da estufa-fria —, um ai jesus
que se a-paga a luz. O drama do financiamento é o que mais confusão gera e,
como é tradição, só à última se assinam os protocolos com os presidentes ou
vereadores dos respectivos municípios e restantes entidades. É neste ponto que deixo de
perceber as coisas. E deixo de perceber porque nunca fui boa a matemática,
confesso, mas, sobretudo, porque até hoje nunca ninguém me mostrou os números concretos e me explicou como se fazem as contas.
Se as Câmaras cedem o local para a realização da
feira, se os editores e livreiros participantes pagam à organização o espaço que ocupam e
se esta ainda angaria verbas com patrocínios de privados (50 000 € ao
todo? mais? menos?), não é possível encontrar um modelo de feira que seja
sustentável sem pedir a uma Câmara Municipal 75 000 € por ano (!) mais fornecimento
de animação cultural? Os editores e livreiros
conseguiram-no no passado. Se hoje não conseguem fazer a feira de forma
sustentável ou inventar novos modelos de feira, que sirvam melhor os seus interesses
e os do público, talvez não sejam tão capazes como deviam. Ou sou eu que estou
a ver tudo mal? De qualquer das maneiras, não me parece que a coisa seja problema
da Câmara, sobretudo num momento em que 75 000 € são mais bem empregues
em apoios sociais, por exemplo, que tanta falta fazem.
As feiras são muito interessantes, as pessoas da
APEL são muito simpáticas, os custos com a organização das feiras (montagens,
etc.) não são, com certeza, despiciendos, mas alguém tem de fazer alguma coisa
de diferente se as feiras forem para continuar. E esse alguém não são as
Câmaras, parece-me. Quando um acontecimento deste cariz só se realiza se houver subsídios (ou incentivos, parcerias, sinergias ou o que quiserem chamar-lhe) desta natureza, algo
está podre no reino da Dinamarca.
E agora, aqui fica o excerto de uma notícia (é mesmo
uma notícia, não estou a brincar, limitei-me a sublinhar):
PS: gosto especialmente da parte do artigo que diz «Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) espera realizar a 83.ª edição em 2014, já com outros protagonistas na Câmara do Porto.»
Actualização: saiu mais uma notícia sobre o assunto, aqui. Mais dados, o problema é o mesmo.
Sabiam que Jackie O foi book editor? Eu não sabia.
Está
aqui um de muitos artigos sobre esses anos da sua vida e sobre uma polémica em que se envolveu. Saltei a parte da polémica e li só as coisas giras. No fim, uma passagem ainda ecoa:
Former Doubleday executive and senior editor Betty Prashker described
these changes in publishing for Al Silverman, who chronicled the period
in his book The Time of Their Lives: “In the beginning, in the
forties and fifties, the editor was at the top of the pyramid, supported
by the administration, the art department, the sales department, the
promotion department. There was basically no business department. But
gradually over the years that pyramid ended, and the editors wound up at
the bottom.”
Num artigo anterior, expus algumas apreensões relativas ao rosto dos e-books. Agora falarei das minhas preocupações quanto ao corpo.
Todos os livros em papel são paginados. Há sempre alguém que espalha o
texto pela página e lhe dá forma. Antigamente eram os compositores, nas
gráficas, hoje em dia são os paginadores, ajudados por programas
informáticos. As escolhas subtis que os editores e estes profissionais
fazem influenciam o modo como reagimos ao livro: o tipo de letra, o
espaçamento entre linhas, a largura da mancha de texto e outros factores
afectam as sensações que temos ao ler, ainda que inconscientemente. O
simples facto de habitualmente termos duas páginas lado a lado e de
lermos da esquerda para a direita condiciona-nos muito.
A paginação nasceu com a imprensa, tem a sua tradição, as suas
regras, as suas limitações e as suas fugas possíveis à norma. Um bom
paginador pode entrar para a história, como Olímpio Ferreira,
e deixar a sua marca pela originalidade ou perfeição. Era assim com a
tipografia, assim se manteve quando a paginação passou a ser feita no
ecrã, mas, no que toca aos livros digitais… não sabemos como vai ser.
Em e-books de texto corrido, a paginação deixa de existir no
sentido habitual do termo, pois passamos a ter páginas dinâmicas sem
grande formatação. Nos e-books ilustrados vemos que os autores e
editores, em grande parte, se têm afastado do conceito tradicional de
livro para tirar partido das novas potencialidades interactivas, optando
por «livros animados» ou enhanced e-books (veja-se o caso de Mr. Lessmore ou do iPoe). Assim, que espaço há para a arte de bem dispor palavras na página? Graças como as que vemos neste livro da Orfeu Negro (na imagem acima), ou neste
da Assírio & Alvim, serão possíveis num livro electrónico? No futuro,
como serão por dentro os livros 2.0? Se um livro tem uma paginação
ajustável, que se adapta às características de cada aparelho leitor — o
mesmo livro pode ser lido na grande tela de um iPad, na tela média de um Kindle ou na de um telemobilis vulgaris—, qual o papel do paginador?
Além da questão do tamanho do ecrã, depois ainda há as preferências
do utilizador — quer ler o texto em que cor, em que tamanho, em que tipo
de letra? As decisões unilaterais e definitivas que dantes pertenciam à
editora agora cabem ao leitor. Isso é simultaneamente bom e mau: bom
porque o leitor pode melhorar a sua experiência de leitura, adaptando-a
aos seus caprichos e necessidades (não é óptimo que um míope, por
exemplo, possa regular o tamanho da letra?); mau porque o editor e a sua
equipa deixam de poder embutir no texto algumas características
próprias. Ao tornar o seu produto mais universal, a editora também o
torna menos especial.
Mas os e-books ainda têm de ser paginados, não é? Alguém tem
de formatar minimamente o ficheiro. Ler puro texto corrido, sem
hifenizações na quebra de linha, sem hierarquias de títulos e outras
pequenas grandessíssimas coisas seria desagradável, tal como seria muito
aborrecido lermos volumes inteiros num formato estático, estilo PDF —
estaríamos a cansar-nos desnecessariamente e a subaproveitar a
tecnologia.
Depois há problemas que a paginação digital (fluida) levanta, tal
como a falta de números de página, que pode tornar muito difícil seguir
um texto em conjunto numa aula ou citar passagens em bibliografias. (As
ferramentas de busca, que permitem pesquisar por determinadas palavras e
chegar à passagem, são apenas uma solução improvisada.) Tudo isso
acabará por ser resolvido mais tarde ou mais cedo, suponho.
Como é que actualmente se faz a paginação de um e-book? No
caso dos textos corridos, não é muito difícil paginar; tira-se partido
daquilo que já se usa em html: títulos, estilos, etc. No caso de «livros
animados», não é bem paginação, será quase design gráfico puro/montar
um filme/desenhar um jogo de computador.
Parece-me que, entre uma coisa e outra — livros de texto simples e livros de conteúdo complexo — há espaço para nascerem layouts inventivos que funcionem bem em e-book e que permitam à editora moldar mais e melhor texto e imagens. Veremos layouts que se inserem num modelo «scroll down
infinito», num de «páginas sequenciais» (como no livro físico), em ambos
os modelos ou surgirá algo completamente diferente? Está tudo em aberto.
Até ao momento, pelo menos, a grande maioria dos livros electrónicos
que tenho lido são bastante rudimentares em termos de paginação e em
nenhum deles a disposição gráfica do texto é especialmente agradável e
eficaz.* Lêem-se, apenas.
Tenho muita curiosidade em relação ao que aí vem. Se tiverem pistas ou ideias, deixem-nas na caixa de comentários.
*Se usar um conversor de ficheiros como o Calibre,
então, a paginação dos novos ficheiros fica desastrosa, cheia de
formatações perdidas. É o que acontece comigo, pelo menos (não excluo a
hipótese de ser eu a parte inábil).
PS: Depois de ter escrito o artigo e pensado mais no assunto, apercebi-me de que uma das minhas perguntas é um tanto disparatada: «Graças como as que vemos neste livro da Orfeu Negro (na imagem acima), ou neste
da Assírio & Alvim, serão possíveis num livro electrónico?» É claro que serão. Dará trabalho, mas sem dúvida que se consegue fazê-lo. Simplesmente, os paginadores do futuro, além da sensibilidade estética e dos conhecimentos técnicos, terão também de ser bons a programar.
Em Abril de 2012, foi criado o Tribunal da Propriedade Intelectual. No primeiro ano de actividade, o tribunal contou apenas com uma magistrada para dar resposta aos quase dois novos casos por dia relativos ao direito de autor e a marcas e patentes. No mês passado, esta instituição acolheu mais um juiz. Viva.
O Ebook Portugal é um site sobre «opresente e o futuro da leitura». Há uns meses, comecei a escrever para o site (de forma um tanto irregular, devido aos muitos afazeres e por ainda ter amor à minha vida pessoal), e já lá vãoalguns pequenos textos. Um deles é sobre as capas dos livros digitais. Hoje, escrevi sobre um «tablet para senhoras», um objecto intrigante, no mínimo. Talvez queiram espreitar, ó leitores e não leitores de e-books (as pessoas, não os aparelhos, coisas que não devem ser confundidas).
Daqui para a frente, tentarei ser mais constante nas minhas contribuições para este site. Agora que eu própria sou dona de um senhor tablet, hão-de aparecer certamente mais textos sobre isto de ser uma ponte, alguém que se lembra de televisores a preto e branco e que agora marca um PIN para entrar no abismo. Vejamos o que aí vem.
Por muitos, a Amazon é vista como um monstro — a boa gente da Melville
House não pára de nos avisar—, por outros, como uma bênção. A Amazon veio revolucionar as vendas on-line (é cliché mas é verdade) e todos nós, profissionais da edição e leitores cosmopolitas, de uma forma ou de outra, acompanhámos de perto esse fenómeno. Contudo, nem sempre os fornecedores, os clientes e os curiosos compreendem bem o que está por detrás desse colosso. Se gostava de saber mais acerca do funcionamento desse pedacinho do nosso mundo e tem 30 minutos para gastar, oiça esta entrevista, que vale bem a pena.