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6.3.13

Amazon, esse papão

Por muitos, a Amazon é vista como um monstro a boa gente da Melville House não pára de nos avisar , por outros, como uma bênção. A Amazon veio revolucionar as vendas on-linecliché mas é verdade) e todos nós, profissionais da edição e leitores cosmopolitas, de uma forma ou de outra, acompanhámos de perto esse fenómeno. Contudo, nem sempre os  fornecedores, os clientes e os curiosos compreendem bem o que está por detrás desse colosso. Se gostava de saber mais acerca do funcionamento desse pedacinho do nosso mundo e tem 30 minutos para gastar, oiça esta entrevista, que vale bem a pena.

PS: Depois, abra esta janelinha e sorria.

20.6.12

π-ssoa

Pessoa é infinito. Dá para tudo e para todos. O de Cavalcanti, além de poeta, é vaidoso, caloteiro, inventor dos matraquilhos (?!) e provavelmente gay
Depois desta entrevista, fiquei curiosa: saberia o brasileiro bonacheirão do que falava? O que é verdade e o que é invenção? Não corri para a livraria porque a ideia de alguém se aventurar, ao longo de 700 páginas, a imitar o estilo de Pessoa (as if) me deixou com fastio logo ali. Aguarde-se pela crítica, nesse caso. E ela chegou. Nas linhas que imaginei, mas muito mais demolidora do que poderia supor, Teresa Rita Lopes arrasa o livro, e o autor (ou co-autor?, cristo!), numa penada.
Eis o texto, que merece leitura integral: Incompreender Pessoa
Hoje, o Ípsilon, suplemento onde saiu a crítica de TRL, anuncia no seu Facebook que Cavalcanti terá espaço para uma carta-resposta na próxima edição em papel. 

São coisas destas que vendem jornais. Intelectual de mão na anca põe tudo a ler. Haja coragem de lavar a roupagem em praça pública, desde que se o faça com graça. Venham as polémicas! De preferência com elevação, mas se for mais pedestre o povo também não reclama. O que é preciso é mexer, debater e ter opinião. Eu sou team TRL, mas estou desejosa que me contradigam.


Cronologia:
5 de Abril - Blogue «Um Fernando Pessoa» faz uma apreciação crítica do livro (a meu ver, equilibrada).
20 de Abril - O autor é entrevistado pelo Sol.
26 de Abril - O livro é apresentado na Casa Fernando Pessoa.
4 de Maio -  Teresa Rita Lopes psicografa uma carta de Álvaro de Campos sobre a biografia.
6 de Maio - É emitida a entrevista ao autor na TVI24.
9 de Maio - O autor responde à carta de TRL.
25 de Maio - TRL publica a sua crítica no Ípsilon.
31 de Maio - Nova carta psicografada por TRL.
16 de Junho - Richard Zenith divulga no suplemento Q informações importantes.
16 de Junho - TRL, no DN, tem novo texto sobre o assunto.
22 de Junho - Sairá carta do autor no Ípsilon. Aguardemos.

16.3.12

Entrevista a Dulce Maria Cardoso



Ontem, na Sic Notícias, apesar da sua confrangedora atrapalhação, Márcio Crespo lá entrevistou Dulce Maria Cardoso, que, grande e amável (como só os grandes sabem ser), foi contando uma história pouco conhecida, a dos retornados, tema do seu último livro, O Retorno, recentemente publicado pela Tinta da China. 
Nunca li nada da autora, nem gostei especialmente do texto que MC leu no início, mas a sua autenticidade ao longo da entrevista fez-me querer saber mais dela, desta gente e deste período, uma odisseia de ontem e não uma anedota distante. 

Da entrevista retenho ainda uma ideia que Dulce Maria Cardoso referiu de passagem mas que merece sublinhado: «As possibilidades da literatura são tão grandes como as suas limitações.»

3.2.12

Ecos

« [...] Na época, era um verdadeiro campo de batalha [a Feira do Livro de Frankfurt]. Procurava-se descobrir a obra-prima desconhecida, procurava-se caricaturar a oposição. Circulavam anciãos respeitáveis, até cheguei ainda a ver Gaston Gallimard. O frenesi era tal que um dia, ao almoço, Valentino Bompiani, Paul Flamant, talvez Rohwolt e um outro de que não me recordo disseram que se alguém tivesse inventado um autor teriam todos ido à sua procura. E inventaram Milo Temesvar, que apenas teria escrito Let me say it now, pelo qual a American Library dera um adiantamento de 50 000 dólares (nos primeiros anos da década de 60). Bompiani volta do almoço, conta a história a Morando e a mim e começámos a andar de stand em stand a perguntar solenemente por Temesvar. Cerca das seis da tarde toda a feira estava em alvoroço. Às oito, num jantar, Giangiacomo Feltrinelli (nunca percebi se para desencorajar a concorrência e ter mais espaço livre para a sua caçada ou por estar mesmo convencido disso) afirma: "Desistam do Temesvar. Já comprei os direitos para todo o mundo." Para mim, Temesvar continua a ser uma pessoa da família. Algum tempo depois escrevi uma recensão falsa sobre ele, dizendo que havia sido expulso da Albânia por desvios esquerdistas e que havia escrito um livro sobre Borges intitulado Sobre o Uso dos Espelhos nos Jogos de Xadrez. Seria de pensar que uma pessoa expulsa da Albânia por desvios esquerdistas fosse absolutamente inverosímil, mas vim a saber que Arnoldo Mondadori tinha assinalado a vermelho aquele artigo, escrevendo "comprar imediatamente". Milo Temesvar retorna também na minha introdução de O Nome da Rosa. Resumindo, hoje estou também eu convencido da veracidade da sua existência. »

Umberto Eco, numa entrevista incluída no livro Guia de Leitura, da colecção «Mil Folhas», do Público

12.10.10

Lighteratura

Danielle Steel deu à Time uma entrevista em que responde a dez perguntas. Eis o vídeo:


A primeira vez que vi um livro da Danielle Steel foi há muitos anos em casa da minha avó materna, que lia e ainda lê muito, principalmente na cama (como eu — só que ela também o faz de manhã, ao contrário de mim, que cada vez tenho menos tempo e adormeço ao fim de menos páginas). Peguei-lhe e julguei-o pela capa, estilo caixa-de-bombons. Li as primeiras linhas e não mudei de ideias; frases banais como «ele pegou na mão dela e depois isto e aquilo» só confirmaram a impressão que a fotografia da autora (a preto e branco evanescente, de mise e colarinho levantado) na contracapa tinha deixado. Carimbo: romances românticos para leitores pouco exigentes. Essa opinião mantém-se.
Porém, aqui está uma senhora que escreveu mais de cem livros, que vendeu milhões de exemplares em dezenas de países, nunca desapontando um público que lhe é fiel. Quanto mais não seja, há que admirar-lhe a consistência e o profissionalismo.
Ao ler um pouco mais sobre a sua vida, conhecendo melhor o seu método, começa a sentir-se gradualmente uma certa reverência pela autora. A resposta lúcida e pronta, uma inigualável capacidade de botar verbo, a empatia com os leitores, a franqueza e a dedicação às suas prioridades fazem de Danielle Steel mais do que uma banal escritora de pena cor de rosa.
Ganhei-lhe uma certa admiração porque não pretende enganar ninguém, porque os seus livros, embora formalmente elementares, terão sido úteis a muitos leitores, como distracção, terapia ou fonte de algum conhecimento, e porque soube alimentar os seus talentos.
Talvez esteja a ser condescendente — o Nicholas Sparks não m'inspira tais observações e quiçá tenha feito o mesmo —, mas o que é certo é que a respeito muito mais do que a um Paulo Coelho (cuja pretensa espiritualidade me desagrada sobremaneira — e para dizer sobremaneira é porque é mesmo muito) ou a um José Rodrigues dos Santos (cujos maus textos condizem com a fraca impressão que tenho da sua pessoa pública).
Não estou a dizer que a obra de Danielle Steel tem valor «por pôr pessoas a ler», o que seria, em grande medida, um bom argumento, ou que «se tem leitores é porque merece ser editada», o que, em parte, até é verdade. O que digo é que Danielle Steel, como autora, tem valor por si mesma. Numa época de sabichões, poseurs e outros impostores, falar de sentimentos (sejam eles quais forem) com sinceridade e competência é coisa rara. Continuarei uma fiel não-leitora, mas daqui em diante assumida admiradora da sua (pelo menos aparente) autenticidade.

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