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2.8.12

(N. do T.)

Estou a ler o Moby Dick e a gostar, naturalmente (embora lhe fizesse uns cortes aqui e ali). Encontrei num alfarrabista uma bela edição, da Estúdios Cor, com tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves. 

Estas traduções antigas são a minha madalena. Há cinquenta anos o vocabulário era outro e isso muda tudo. Enquanto leio vou recuando no tempo e a viagem desculpa as vírgulas mal colocadas e quaisquer outras atribulações menores. Além disso, as marcas dos chumbos tipográficos saltam à vista e essa artesanalidade dá um quentinho extra à leitura. Cresci com a colecção «Dois Mundos» e a minha Mafalda é a das traduções dos anos 70, talvez a nostalgia venha daí. Mas adiante.

A tradução está bem feita e a primeira gralha só a encontrei lá para a página 80. Não sou defensora acérrima de um tipo particular de tradução — mais próxima da língua de partida ou da de chegada, com o tradutor mais discreto ou mais à vista —, ela tem é de ser competente e a adequada para o livro em causa. Neste caso particular, estou bastante ciente da presença do tradutor, que me tem feito uma agradável companhia. Aquilo por que não esperava era que ele se pusesse a dizer de sua justiça quanto ao autor, a outros tradutores ou à literatura em geral. Ora espreitem:



Eis o parágrafo a que a nota diz respeito:


Já vi, e até já fiz, muita coisa fora do normal, mas opinar desta maneira é para mim uma novidade. Não me incomodou minimamente, mas fiquei espantada, pois este género de considerações costuma pertencer aos bastidores.
Resta saber qual dos dois, AM ou DG, foi o atrevido.*

Para terminar, deixo-vos uma das muitas pérolas de Melville neste clássico:




* Costumava achar que as obras com dois ou mais tradutores eram feitas em colaboração, lado a lado, devido à complexidade do original. Entrando para a edição, rapidamente me desenganei trata-se quase sempre de uma divisão geométrica.


PS: Se fosse vivo, o senhor Melville teria feito ontem 193 anos.

8.11.11

Nota

Não cheguei a terminar a minha tradução do texto Words, de Tony Judt, mas em O Chalet da Memória, que acaba de ser lançado por Edições 70, esta e outras pérolas estão lá, cada uma mais lúcida e comovente do que a anterior.

3.7.11

Até Orwell merece uns cortes*

Não no orçamento. Na escrita. Uma boa edição de texto faz milagres. Como um bom corte de cabelo mas vezes mil.

A verdade é que é difícil dizermos o que pretendemos à primeira. Repetimo-nos, enganamo-nos, trocamos a ordem das ideias, esquecemo-nos do leitor e com a má forma podemos aniquilar o conteúdo.
Porém, sentido crítico, familiaridade com a(s) língua(s), cultura geral e talento para a cirurgia podem ressuscitar um texto.
É difícil para o paciente, que nem sempre tem a paciência necessária. Mas para o operário das obras também não é fácil. Para o primeiro, o segredo é confiar. No caso do segundo, o truque é ser-se alternadamente protector, crítico, impiedoso e criativo.

Protector para com o leitor, para com as suas expectativas, respeitando o tempo e o dinheiro que ele despenderá com o texto, mas também para com o autor/tradutor, que cairia no ridículo se certas coisas chegassem a público, e ainda para com a editora, que acolhe a obra.
Crítico para com o autor/tradutor, que são humanos e, naturalmente, falham, e para com o próprio, medindo as medidas tomadas.
Impiedoso para com o texto, fazendo o bem sem olhar a quem, avançando com coragem e razão.
Criativo nas soluções propostas, procurando beneficiar todas as partes sem ferir susceptibilidades.

Há que respeitar as intenções do autor/tradutor, as ideias no texto, as necessidades do leitor. E no meio de tudo isto manter-se invisível.
É difícil para o autor/tradutor admitir insuficiências e perfilhar passagens que não são suas.
É difícil para o revisor/editor de texto, que tem de recorrer à negociação permanente (e que deixará de conseguir ler seja o que for em paz).
A editora faz de árbitro e se o fizer bem não ficará a perder.

Se tudo correr bem, no fim ganham todos, especialmente os leitores.

Se os editores de texto fazem falta hoje? Por Zeus, mais do que nunca!


* Writing naked (nakeder than Orwell)

1.11.10

Found in translation


Grã-Bretanha, Inglaterra e Reino Unido não são a mesma coisa.

17.10.10

Nós por lá

«Crítica» ao Livro do Dessassossego, de Fernando Pessoa, no Guardian. (Não lhe faz justiça, mas any publicity is good publicity.)

1.10.10

Possibilidade

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim,
que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos,
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana. Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade que o ser tenha uma razão.

Wisława Szymborska

Tradução de Virgílio Tenreiro Viseu, em A Vertigem das Listas, de Umberto Eco, Difel, Lisboa, 2009

30.9.10

Palavras

Tony Judt faleceu no passado dia 6 de Agosto. Na New York Review of Books deixou-nos as suas últimas crónicas. Destas, a minha preferida talvez seja Words, que agora traduzo em três partes, em jeito de homenagem (e sem pedir licença a ninguém).


[parte 1]


Cresci com palavras. Elas tombavam da mesa da cozinha para o chão, onde me sentava. Entre avô, tios e refugiados, arremessavam-se, numa sucessão vertiginosa, afirmações e interrogações em russo, polaco, iídiche, francês e numa espécie de inglês. Indigentes sentenciosos do Partido Socialista do Reino Unido passeavam-se na nossa cozinha, promovendo a Causa Justa. Passei muitas horas a ouvir os autodidactas da Europa Central discutir pela noite dentro: marxismus, zionismus, socialismus. Parecia-me que falar era o propósito da vida adulta. Esta impressão nunca me abandonou.

Quanto a mim – e para me integrar –, também falava. Para dias de festa, memorizava palavras, recitava-as, traduzia-as. «Oh, ele será advogado», diziam. «Encantará os próprios pássaros, nas árvores»: coisa que tentei nos parques, em vão, até perceber o sentido da expressão e a empregar durante a adolescência, também sem grande resultado. Por esta altura, passara das intensas trocas poliglotas para a elegância do inglês da BBC.

Os anos 50 – quando frequentei a escola primária – foram uma época em que o uso e o ensino da língua inglesa se faziam com rigoror. Aprendemos que a menor transgressão sintáctica era inadmissível. O «bom» inglês estava no auge. Graças à BBC e às newsreels que precediam as sessões de cinema, estabeleceram-se normas nacionais para o discurso correcto; a autoridade da classe e da região determinavam não só como as coisas deveriam ser ditas, mas também que tipo de coisas era adequado dizer. Os «sotaques» abundavam (incluindo o meu), mas eram classificados como sendo mais ou menos respeitáveis: tipicamente, em função da posição social e da distância geográfica de Londres.

Fui seduzido pelo brilho da prosa britânica no seu efémero apogeu. Vivia-se a era da literacia de massas, cujo declínio Richard Hoggart antecipou no ensaio The Uses of Literacy (1957). Culturalmente, emergia uma literatura de protesto e revolta. De Lucky Jim a Look Back in Anger, passando por dramas de realismo social no final da década, as fronteiras classistas da sufocante respeitabilidade do bem falar estavam debaixo de fogo. Mas os próprios bárbaros, no seu ataque à tradição, recorriam às cadências aperfeiçoadas do inglês que lhes fora ensinado: ao lê-los, nunca me ocorreu que para nos podermos revoltar temos de o fazer usando a boa forma.

Chegado à Universidade, as palavras eram a minha inclinação. Como ambiguamente observou um professor, eu tinha o talento de um «orador de língua dourada» – combinando (como eu queria acreditar) a confiança inata daquele meio e o olho crítico do forasteiro. Os docentes de Oxbridge recompensavam o estudante verbalmente capaz: o estilo neo-socrático («porque escreveu isto?»; «o que quis dizer com aquilo?») convidava o aluno solitário a explanar-se longamente, assim lesando o pupilo tímido, reflexivo, que prefere ocupar as últimas filas do anfiteatro. A minha fé interesseira na eloquência foi reforçada: não era apenas prova de inteligência, era a própria inteligência.

Terei notado que o silêncio do mestre nesta circunstância pedagógica era crucial? Quer como estudante, quer como professor, o silêncio nunca foi um dos meus fortes. Ao longo dos anos, alguns dos meus colegas mais ilustres tornaram-se reservados a ponto de se remeterem ao silêncio hesitante durante debates e até em conversa, pensando ponderadamente antes de se comprometerem com uma posição. Invejei-lhes esta capacidade de contenção.

18.9.10

Inverter o processo

Manuel A. Domingos, entre outras coisas tradutor de Charles Bukowski e autor dos blogues meia noite todo o dia e o amor é um cão do inferno, dá destaque ao seu autor favorito nesta Alice #3. Todo o artigo tem interesse, mas é de salientar o seguinte poema:


se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender

que não há nada nem ninguém a saber tudo –

nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem

a dar uma aula de escrita criativa

e lerem isto

eu dou-vos um 20

pelo cu

acima.