23.4.13

Impolémica

Há dias, o nosso presidente da república em Havana, perdão, em Bogotá, discursou no âmbito da Feira do Livro dessa cidade (que é mais um festival literário do que uma livraria ao ar livre). Portugal é o país convidado, estiveram presentes muitos autores do nosso canto do mundo e fazia sentido que Aníbal Cavaco Silva dissesse umas palavrinhas a propósito.
O que não fazia qualquer sentido era considerar obrigatório que o nosso presidente, por quem nem nutro especial simpatia, tivesse de citar obrigatoriamente o nosso nobelizado Saramago, a quem até acho graça, no seu discurso. Por alma de quem? Do falecido?
El Presidente fez uso da sua liberdade de expressão, citou Camões muito bem e até Vergílio Ferreira («Da minha língua vê-se o mar.»). Elogiou García Marquéz, referiu Jerónimo Pizarro e Álvaro Mutis. Para mim, já chega de name-dropping.
Saramago, que tem um Nobel, uma bela fundação, best-sellers e milhares de leitores precisava agora que um homem que desprezava o referisse? Acho que até agradecia o silêncio.
Assim, não percebo a onda de indignação que varreu tudo, dos notíciários ao Facebook. De repente, até parece que não temos mais com que nos indignar. (Mas depois lembrei-me de que estou em Portugal.)

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