3.2.12

Ecos

« [...] Na época, era um verdadeiro campo de batalha [a Feira do Livro de Frankfurt]. Procurava-se descobrir a obra-prima desconhecida, procurava-se caricaturar a oposição. Circulavam anciãos respeitáveis, até cheguei ainda a ver Gaston Gallimard. O frenesi era tal que um dia, ao almoço, Valentino Bompiani, Paul Flamant, talvez Rohwolt e um outro de que não me recordo disseram que se alguém tivesse inventado um autor teriam todos ido à sua procura. E inventaram Milo Temesvar, que apenas teria escrito Let me say it now, pelo qual a American Library dera um adiantamento de 50 000 dólares (nos primeiros anos da década de 60). Bompiani volta do almoço, conta a história a Morando e a mim e começámos a andar de stand em stand a perguntar solenemente por Temesvar. Cerca das seis da tarde toda a feira estava em alvoroço. Às oito, num jantar, Giangiacomo Feltrinelli (nunca percebi se para desencorajar a concorrência e ter mais espaço livre para a sua caçada ou por estar mesmo convencido disso) afirma: "Desistam do Temesvar. Já comprei os direitos para todo o mundo." Para mim, Temesvar continua a ser uma pessoa da família. Algum tempo depois escrevi uma recensão falsa sobre ele, dizendo que havia sido expulso da Albânia por desvios esquerdistas e que havia escrito um livro sobre Borges intitulado Sobre o Uso dos Espelhos nos Jogos de Xadrez. Seria de pensar que uma pessoa expulsa da Albânia por desvios esquerdistas fosse absolutamente inverosímil, mas vim a saber que Arnoldo Mondadori tinha assinalado a vermelho aquele artigo, escrevendo "comprar imediatamente". Milo Temesvar retorna também na minha introdução de O Nome da Rosa. Resumindo, hoje estou também eu convencido da veracidade da sua existência. »

Umberto Eco, numa entrevista incluída no livro Guia de Leitura, da colecção «Mil Folhas», do Público

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